22 janeiro 2007

Sigamos a truta



A senhora Ilda nunca comeu uma truta. Vive há quarenta e sete anos entre as trutas. Até já tem uns olhos fixos e aquosos como os das trutas. Quando começa a falar de trutas tem sempre mais para dizer e nunca se queixa do trabalho que elas lhe dão como quando são bebés e que tem que se lhes dar comida de hora a hora. As águas onde vivem têm de ser agitadas e frias. A senhora Ilda mete constantemente as mãos nestas águas que exalam frio só de as olhar. As mãos da senhora Ilda estão a começar a ficar deformadas pela artrose, mas ela mergulha-as na água gelada dizendo que vai do hábito. Herdou a profissão do pai que criou trutas durante cinquenta anos. O pai muito jovem tratava de trutas enquanto ribombava a segunda guerra mundial e ela tinha começado há um ano quando foi o 25 de Abril. Durante todos os governos provisórios e não provisórios, enquanto se casava e tinha filhos cuidou das suas trutas. De manhã à noite ouve-as a atravessar as águas barulhentas e durante muitos anos dormiu mesmo ao pé delas. Conhece-lhes os mergulhos e os saltos, a forma quase pessoal de deslizar para nós e mostrar o lombo colorido e fugaz. Trata de todas, desde a ova inanimada, até ao adulto de três ou quatro quilos de igual forma. Muda-as de tabuleiro em tabuleiro durante a gestação, limpa-as das cascas de onde saem, vai-as conduzindo de um pequeno tanque para outro à medida que crescem, como quem sobe os degraus do infantário e, mais tarde, de um grande tanque para outro até passarem para os lagos de adultos. Quando as muda, diz que tem pena de as não poder levar ao colo. Quando as espreme para lhes retirar as ovas e o ciclo poder recomeçar, não o faz sem antes lhe afagar o dorso. Nota que as da espécie arco-íris são mais expansivas e dão grandes saltos vindo quase cumprimentar-nos e as da espécie fario são mais discretas e metidas consigo. Ela, embora trate de todas com o mesmo desvelo, prefere as fario.

Rosaarosa

(Isabel Hupert em A Truta de Losey, a partir do romance de Roger Vailland)

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