02 março 2007

Sobremesa na rue Jacob



Nesse ano em Paris, ela sentia-se como uma freira grávida de luto. Ela vestia-se como uma freira grávida de luto. Uma vez por semana jantávamos no Au 35, rue Jacob. A cozinha estava no andar de cima. As serveuses, muito gentis, subiam e desciam sem cessar. Quando desapareciam no cimo das escadas, e ao iniciarem a descida, ouvia-se o grito pavoroso de um homem na agonia, no estertor da apneia do sono. Os hóspedes olhavam-se perplexos, e à medida que o jantar avançava, os prazeres da sauce d’aubergines eram substituídos por um indisfarçável temor. No INSERM, ela descobrira que a Oxitocina, produzida antes do parto, anestesia o bebé e prepara-o para a violência da expulsão. À sobremesa, chorava sempre. Em silêncio. As mesas eram muito próximas, e os comensais olhavam-me com reprovação. Eu não percebia as lágrimas dela. Como estava de costas, não vi nunca o reposteiro de veludo vermelho nem o frio que o estremecia. O chocolate amargo com patchouli era para partilhar, mas ficava sempre no prato.

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