30 abril 2007

Nous sommes tous des gendarmes français



A D. Quixote traduziu e o Ipsilão deste fim-de-semana entrevistou a autora, Tatiana de Rosnay. O livro relata um episódio triste da ocupação nazi da França. Em 16 e 17 de Julho de 1942 a polícia francesa prendeu milhares de judeus que levou para um pavilhão desportivo, o Velodrome d'Hiver. Aí começou uma tortura que acabaria em morte nos campos de Drancy e Auschwitz. A rusga da noite de 16 de Julho ficou conhecida pela Raffle du Vel d'Hiv, mas só há pouco tempo é do domínio público. Já o Rui Bebiano escreveu sobre isto, a propósito de um livro de história contemporânea. O que hoje sabemos sobre o Holocausto, sobre o colaboracionismo francês, sobre o comportamento do Exército Vermelho na marcha para Berlim e nos combates que levaram à queda e rendição do III Reich, é matéria de divulgação recente. A história do gulag estalinista, obras como Volcano and Miracle de Gustaw Herling (Penguin Books, 1996) ou A World Apart, Arbour House, 1951 (citadas por John Gray em Sobre Humanos e Outros Animais) nunca foram divulgadas entre nós. É neste terreno de ignorância que cresce gente como a Rita da Covilhã ou, em outro registo, os rapazes da JCP que, ao que dizem, apuparam Edmundo Pedro no 25 de Abril.
Na Kolyma soviética o preso Chalamov escrevia: "Há circunstâncias em que um homem tem de se apressar a morrer se não quiser perder a vontade de morrer." E John Gray, no livro já citado acrescenta: "Nos seus piores extremos, a vida humana não é trágica, mas sem sentido." Os polícias que levaram para o hipódromo famílias inteiras, os vizinhos que calaram, os que os enviaram para Drancy, onde Max Jacob morreu de inanição, os que conduziram os comboios, os guardas dos campos de extermínio, eram gente como nós. Gente como nós em situações excepcionais. É preciso perceber como se geram as circunstâncias excepcionais, como cresce a bestialidade, como se cria o clima que torna possível que o gendarme francês se transforme em verdugo. Há dias em que pensamos que somos todos judeus alemães, que somos todos berlinenses e nos orgulhamos do que somos. Mas somos todos polícias franceses. Quando reina o medo e a insegurança, quando há pouca comida, quando ressoa o silêncio nos jornais, quando aos mais fracos não é reconhecida toda a humanidade, nesses dias podemos ser todos polícias franceses, cumprindo exemplarmente as ordens do ocupante.

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