29 abril 2007

O Ipsilao. En français, L'Ipsilon



Exmo. Senhor Director

O suplemento Ípsilon de 27 de Abril contém uma longa entrevista a Jean d'Ormesson, na qual quer o entrevistador quer o escritor se mostram preocupados com o declínio da língua francesa. Et pour cause... nem de propósito, os atropelos linguísticos sucedem-se neste suplemento com um ritmo estonteante.
Nas pp. 4 a 9, depara o leitor com um artigo dedicado ao cantor Camané. Aí, para além de o nome da famosa canção de Jacques Brel, "Ne me quitte pas", surgir sistematicamente com uma grafia incorrecta (é "quitte", e não "quites"), o cantor Camané e o jornalista João Bonifácio são unânimes no elogio a esta "bandeira do Brell"; só é pena que nem um nem outro pareçam ter percebido que "l'ombre de ton chien" é "a sombra do teu cão" e não "o ombro do teu cão". Os resultados desta tão bizarra tradução estão à vista do leitor na p. 6, e constituem um diálogo verdadeiramente hilariante.
Mais à frente, na entrevista a Jean d'Ormesson (p. 36), Adelino Gomes presta um mau serviço à língua e à história do país de origem do escritor, que se refere a Talleyrand. Ora o nome do famoso homem de estado francês surge com a grafia "Talleron". Já agora, na expressão "avant la lettre" (p. 36), "lettre" não tem acento circunflexo, e em "c'est comme ça" (p. 37), "ça" não tem qualquer acento grave.
Algumas páginas a seguir, é a vez de a jornalista Helena Vasconcelos se referir à violoncelista Jacqueline du Pré como "Jacqueline Du Prés".
Fico-me por aqui. Creio que este número do Ípsilon constitui uma prova evidente da incultura e do desleixo reinantes. Hélas...razão têm os academistas franceses em verter lágrimas amargas.

Maria José Goulão


Exmo Senhor Director

O que é o ombro de um cão? Estará o poeta camané a pensar que descobriu a origem da metáfora? andará ele a tresler o herberto helder enquanto semi-cerra os olhos para fadunchar? Poupem-nos entrevistadores e entrevistados que não sabem usar um dicionário! O ombro de um cão virá dos confins dos anos 80 em que a todo o ser vivo era prescrito o uso compulsivo de chumaços?! EXIGIMOS SABER ONDE DIABO HÁ CÃES COM OMBROS! De certeza que não era no poema do Brel...

Ó camané: sinceramente, não me quilhes, pá!...



Rosa Oliveira


(Das Cartas ao Director do Jornal Público)

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