16 maio 2007

Consultório





Tenho de correr pelo cais da estação. Sair do comboio e correr pelo cais da estação. P. anda por lá à minha procura e encontra-me mal eu ponho os pés fora da carruagem. Como terá conseguido dar assim com a carruagem certa, entre tantas? Dá-me as indicações que consegue, tem a sorte de não ser pessoa de quem se espere muito. Provavelmente só foi buscar-me à porta da carruagem para tentar obter alguma aceitação através da utilidade. Eu faço-o com as palavras, ele com a utilidade. Eu frequentemente, ele daquela vez. Eu ainda cá ando, embora nem sempre, ele talvez não, nunca se sabe. E eu corro, claro que corro pelo cais da estação, com os olhos arregalados e um .rriso de felicidade desmedida. Nunca fui muito bom nos sorrisos de felicidade desmedida, mas a este pratiquei-o. Ostento-o sem interrupções enquanto corro pelo cais da estação, enquanto espreito pelos interstícios da multidão para ver antes de ser visto. Como se fizesse alguma diferença.

Eduardo

R:
Eduardo, não abuse. Uma questão de cada vez.
Comecemos pelo seu décimo primeiro do verão. Gosto muito. Tem de tudo. Estações, o Eduardo a correr pelo cais, o sorriso que ostenta e essa ideia que persegue: chegar antes, ver sem ser visto, ver quem ainda não o vê, quem não o espera, quem gosta de ser encontrado.
Imagino-o a correr, no cais da estação, de dia. No Copo dos Dados, Max Jacob, escreveu o Nocturno das Hesitações Familiares que acaba assim: Noites há que terminam numa estação, estações que terminam no meio da noite. Ah maldita hesitação! Pois não foste tu que me perdeste e bem longe, ó estações, das vossas salas de espera!
A sua corrida determinada, sozinho, é tão linda como a hesitação nocturna de Max Jacob. E felizmente há muita gente para dar por isso.



Mais cedo que tarde, independentemente dos caminhos, para lá das saídas e das entradas, sem que haja regularidades observáveis no que toca às materialidades (ora...) inerentes à problemática em apreço, por fugazes segundos ou, até mais ver, para sempre, todas as pessoas por quem me apaixonei até hoje, e que, para felicidade minha e alheia, não foram mais que umas poucas dezenas, acabaram sempre sempre sempre por me fazer lembrar as aguarelazinhas do Adolf Hitler. Os danos são incomensuráveis. Deverei ter esperança? Se sim, de quê? Se não, porquê?

Eduardo

R:
Não acredito que as pessoas “por quem se apaixonou” se tenham transformado em aguarelas tão medíocres. Que esteja condenado àquilo a que Barthes chamou o “horrível refluxo da imagem” do ser amado, o momento em que Carlota passa a ser uma “mulherzinha”, em que Albertine diz “le mot terrible”. Se é assim não deve ter esperança. Porque o outro não se conforma com o “envelope liso “ onde o quer amar. Pode correr nos cais que não merece aquele que quer surpreender no interstício das gentes. Nem a estação merece ser tratada assim.

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