26 maio 2007

Ponto de interrogaçao


Rita Magalhães

Não gosto do ponto de interrogação. Gosto da interrogação e da escrita que se interroga. Mas prescindo do ponto. Percebo que seja difícil escapar-lhe. A mais arrasadora das frases sobre a interrogação - Se não sabe, porque é que pergunta- não escapou à maldição que pretendia conjurar. O ponto de interrogação é uma bengala inútil. Os de língua castelhana grafam-no no início da frase, para não deixar dúvidas. E aí, invertido, ele tem alguma graça. No final é redundante. Não é feminino como as reticências. As reticências encontraram o seu esplendor no tempo dos sms e dos mails. Algumas mulheres muito profundas não conseguem acabar uma frase sem os três pontinhos. Parecem querer dizer sempre mais . Uma mulher com três pontinhos é uma mulher insinuante. Como as que_______ pontuam à Llansol. Ou dizem bisou no fim dos mails ou comentários. Não vejo diferença entre uma que diz bisou, bisou e um que se notabilizou assegurando que jamais, jamais. Ambos estão dispostos a trair. O que diz jamais, jamais, à la voix de son maître dira, tout de suite. A que diz bisou, bisou diz de lábios esticados. Pontos de interrogação, notação______à Llansol, reticências, estão bem para retiros na Arrábida, comentários de blog feminino, sarau de Laurinda Alves com pôésia e muitos sentimentos. Uma escrita seca e viril, uma escrita que seja como as coisas, como os pratos lambidos pelos gatos, como os lapiás apontados aos céus, o voo silencioso das corujas, as mãos secas das mulheres da limpeza, o suor frio que se segue à vertigem, a fome e o desejo, não precisa destas ajudas de custo

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