16 julho 2007

Telhados de Vidro: provas de coisa nenhuma




TELHADOS DE VIDRO N.º 8
Maio de 2007, 144 pp., 13 euros
(Tiragem Única de 500 exemplares)
Direcção: Inês Dias e Manuel de Freitas
Capa de Bárbara Assis Pacheco. Paginação e arranjo gráfico de Olímpio Ferreira

Editora Averno

Saíu o nº8 desta publicação que reúne poetas do não-grupo a que Manuel de Freitas chamou de "poetas sem qualidades" e outros, com algumas afinidades. Poemas de Manuel de Freitas Rui Pires Cabral, José Miguel Silva, A.M. Couto Viana, Rui Nunes e ensaios de Rosa Maria Martelo, João Miguel Fernandes Jorge, entre outros.
Manuel de Freitas assina ainda uma evocação da obra de António José Forte, o poeta das Citroens itinerantes da Gulbenkian, que nos anos 60 levaram a literatura onde era suposto só haver Fátima e futebol. O número abre com um poema lindíssimo de Fernando Assis Pacheco, publicado em 1976, memórias frescas de uma guerra que sabemos ter sido a guerra africana, vista com a derisão de quem vê sair do quartel "o exército do Ocidente de alpergatas nas últimas", e só sabe "fazer versos, isto é nada."
A mesma descrença em qualquer valor da poesia, em qualquer sentido transcendente da vida "dos homens, das mulheres e dos outros animais" encontra-se em alguns dos poetas representados, como Rui Pires Cabral, revelado na Averno e felizmente presente nestes Telhados de Vidro.
É deste que escolho um Oráculo de Cabeceira:

"I felt that it was all unreal."

Chega ao fim do dia
a hora mais lenta, quando o céu
é vago e as luzes se acendem
no prédio da frente.

Vemo-los por vezes
dentro das janelas, vultos
delicados como miniaturas
ou meros reflexos que passam
nos vidros.

Alguns prosseguem encargos
de sombra, outros detêm-se
a olhar a rua, no gesto
a expressão do seu puro
enigma.

E são como provas
de coisa nenhuma. Se acaso
nos fitam, parecem dizer:
a morte não será decerto
mais estranha que a vida
.

(ver comentário de hmbf)

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