19 agosto 2007

Agosto


Se o outro é o mais cruel, Agosto é o mês da pasmaceira, do obituário, dos suplementos de férias. A psicologia evolucionista diz que vivemos mal, nesta sociedade pós-industrial, com os nossos genes pleistocénicos. Se não é verdade, é verdade em Agosto. Em Agosto o primeiro-ministro vai para Malta, agora já sem a obrigação da namorada. A ministra da Cultura não é vista desde a jantarada do Berardo. Para o povo não cair na tentação anarquista de pensar que isto sem governo se governa na mesma, deixam ficar o malfeitor da saúde. Tudo sem surpresas. Portas, o fragateiro, de tão inexistente até se arrisca a ficar simpático; prossegue, silenciosa, a transferência das elites do PSD para o PS, esse movimento subterrâneo de águas que mantém o dinheiro perto do poder. Depois de sair do PSD, José Miguel Júdice esforça-se por refundar o PS. Sob o ponto de vista teórico, o entusiasmo de Júdice por um PS pós-socialista e as questões ideológicas que vem levantando ficarão provavelmente conhecidos como a Questão Ribeirinha. As revistas de coração foram ao Algarve e só conseguiram encontrar Jerónimo nas sardinhadas de Monte Gordo e Vara (Vara!), com Pires de Lima na Quinta do Lago. Os jornais de referencia parece não terem leitores nem jornalistas. O Público de 16 de Agosto dava destaque a uma redacção da senhora professora Maria da Graça Mexia com o título Afinal parece que Nossa Senhora tinha defeitos. A Opus Dei destrói o maior banco português. Só se espanta quem não conhece a natureza do Mal, nem leu Shakespeare. Em Agosto elas (links) deixam de escrever. É então que todos os crimes são possíveis. Os coliformes fecais bordam as praias, os banhistas já se habituaram àquela espuma. As praias populares tornaram-se uma fossa séptica. Em Cadiz, 150 000 pessoas comeram, mijaram e defecaram no mar. Algures, também em Espanha, uma família inteira morreu dos seus vapores. Triste é o destino das famílias em Agosto. Até as sobrinhas da Laurinda Alves, que ela “abraça e adora e enche de beijos queridos a toda a hora”, se viram, embora momentaneamente, privadas das bonecas Polly.

Etiquetas:

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

Hiperligações para esta mensagem:

Criar uma hiperligação

<< Página inicial