14 janeiro 2008

Argumento em Arles


Olha Rosa, já que perguntas, então eu digo-te que o último argumento que se me atravessou foi na noite de ano novo, no Hotel Nord Pinus, em Arles, quando a recepcionista me disse que não gostava do Montalban. Ainda nem me tinha dado a chave do quarto e já me falava assim. Para me recomendar Milénio, não o do malogrado catalão, mas de outro que está a vender bem, ao que parece, nas Fenaques de França. Eu disse-lhe que Milénio, para mim, era o do Pepe Carvalho. Gerou-se logo ali um pequeno motim feminista e lembrei-me de ti nessa noite, por ser fim-de-ano e seres assim tão contrária às minhas preferências literárias que decerto aumentarias as hostes das que, numa data tão favorável à concórdia, se uniam contra mim. Lembrei-me sem me lembrar, que nesses dias eu já não atribuía o teu silêncio às deficiências do operador de roaming. Há alguns dias que me esforçava por ignorar a tua existência. A tua existência espanhola. Podias gritar por auxílio que eu não ouviria. Podias pedir um par de botas. Eu não mexeria um dedo por ti. Já alguma vez, nas férias, abandonaste um cão no canil? Quando voltas ele não te devolve o olhar, já não te come à mão, não sacode o rabo. Levemente amuado sentei-me no hall. Via a caligrafia da baronesa Blixen, as fotos do pintores, dos toureiros, dos escritores. E se fechasse os olhos podia ouvir-te, no bar, a garantir que não era só do Montalban que não gostavas. Era do John Gray, do Roth, do Coetzee, do Dawkins, de passear a pé no campo, da noção de passear a pé e da noção de campo. Depois saíste para a Place do Fórum e começaste a atirar o pau a um cão, cena que os turistas retardatários ainda registaram.

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