14 março 2008

Arrumar as botas


Peter Henri Emerson


À noite ao descalçar as botas
ouço nas ruas as vozes das raparigas.
Não volto a calçá-las tiro o edredão
arrumo a roupa de Inverno nas arcas
espalho as bolas de naftalina nas gavetas
que vão guardar a roupa do Inverno
limpo a salamandra e penso o que vou fazer
à lenha que sobrou
o que vou fazer aos cronistas do Inverno
aos livros do Inverno aos sentimentos
que me entulharam o peito do Inverno
às notícias dos vossos amores desavindos
ao silencio dos amigos que partiram
aos pratos de substancia do Inverno
à fluoxetina e aos betabloqueantes e aos outros
medicamentos do Inverno aos peixes mortos
às galochas às manchas de sangue nos lençóis
aos filmes do Inverno aos políticos
e aos padres do Inverno à ciência
e à filosofia do Inverno
Agora que chegaram os junquilhos amarelos
te levantas para o primeiro comboio
da manhã e viajas sempre para o Norte
e nas ruas se ouvem as vozes das raparigas

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