10 março 2008

Duas Histórias


Cornelia Parker

Há um diálogo entre Ryszard Kapuściński e John Berger em que o polaco diz que havia , até meados do século XX, uma história da humanidade, e depois duas: a real e a que os media constroem. A segunda é construída por jornalistas ignorantes e preguiçosos, num clima de concorrência desleal pelas audiências. Eu não sei o que seja a história real. Não tenho nenhuma visão de conjunto da humanidade. Ás vezes, quando ouço Vattimo dizer que existe um sentido para a história e que esse sentido é a diminuição da violência, tenho umas breves epifanias. São como as abertas nos dias de Inverno. Sabem bem, mas não confiamos e sabemos que não vão durar. Além de não ter nenhuma visão geral também não tenho nenhuma visão particular. Acho as pessoas, em geral, muito sérias, muito preocupadas em perceber, em arranjar razões para coisas tão simples e saudáveis como protestar contra a tirania dos iníquos, passearem juntas, encher as ruas com os seus corpos enquanto vivas. A manifestação dos professores, já que falamos disso, foi óptima. Juntarem-se, irem de excursão à capital, falarem uns com os outros, darem os braços, vestirem roupa simpática, dançarem, comerem juntos, inventarem canções, tudo isso é estimável. Não era preciso gritarem os slogans da organização. Não era preciso o Mário Nogueira, o Paulo Portas, o Louçã. Mas talvez o Kapuściński tenha razão. No meio dos professores, entre o frango e as conversas do autocarro, numas mãos que se tocam de forma especial, talvez esteja a verdadeira história. E o Nogueira, o Portas e o Louçã talvez sejam, afinal, a história contada pelos jornalistas preguiçosos.

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