28 julho 2008

A responsabilidade individual


Zhang Xiaoging

Rui Tavares escreve hoje sobre ” a responsabilidade individual de alguém que participa num debate público”. Acho o tema fulcral, hoje em que quase todos, de uma forma ou outra, intervimos em debate público. Escrevemos, aceitamos dar a nossa opinião, subscrevemos petições, reclamações, manifestos, usamos Tshirts ou pins com mensagens, ou simplesmente votamos, entregamos a alguém o nosso voto para que um programa tenha condições para ser cumprido. Somos responsáveis. Quando defendi publicamente a despenalização do aborto responsabilizei-me pelo cumprimento de um programa de interrupção da gravidez, a pedido da mulher, em ambiente seguro. Quando um ano depois vejo os resultados fico contente. O governo, o ministério da Saúde e o Serviço de saúde cumpriram e os resultados são satisfatórios. Fizeram isso sem precisarem da pressão dos movimentos sociais. Merecem aplauso. Com o aborto despenalizado, sem mulheres presas nem castigadas pela infecção, pela hemorragia, pela infertilidade ou pela infâmia podemos discutir melhor o aborto. Ficámos mais livres. Mas eu devia ter acompanhado melhor o processo de cumprimento da lei. A minha responsabilidade individual exigia-me isso.
Se os bloggers do PS censurassem publicamente Martins quando ele foi arrogante contra Cravinho e dissessem: sinto-me arrogante, sinto que esta arrogância não favorece a luta anti-corrupção. Se os bloggers do PSD que consideram inaceitável para o ambiente uma intervenção pública como a de Jardim e Ramos, escrevessem: sinto-me insultado com estes insultos. Se os bloggers do BE reprovassem claramente a cultura de morte dos movimentos medievais que cercam o Estado de Israel e dissessem: o Hamas, o Hezbollah são movimentos medievais . Se os bloggers do PC dissessem, de cada vez que um texto abjecto é publicados no resistir.info ou no Avante: é um texto abjecto, sinto-me abjecto. Se isso acontecesse as coisas melhorariam. Os arrogantes, os terroristas da palavra e da bomba, os adeptos de agendas escondidas continuariam a existir. Mas sentir-se-iam mais isolados.
Vão dizer que esta responsabilidade individual é ingénua, curta. Que enquanto dela falamos os discípulos de Maquiavel decidem do que importa. Das nossas vidas. Talvez. Mas os resultados são
conhecidos. Os resultados condenam-nos a um futuro miserável. Se tentássemos de outra maneira? Se essa outra maneira começasse connosco?

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