01 agosto 2008

Eugenia Ginzburg: uma mulher do Mal


Zhang Xiaogang


Eugenia Guinzburg já estava presa há dois anos quando foi transportada para Vladivostok, partilhando o “vagão 7” com outras setenta e seis. Numa estação nas imediações de Irkutsk foi embarcado mais um grupo de prisioneiras. Todas as mulheres do vagão 7 estavam meio mortas de fome e doença, mas algo na aparência física das recém-chegadas causou consternação: tinham-lhes rapado a cabeça. As recém-chegadas olhavam as nossas tranças e caracóis com invejosa admiração…”Amanhã podem fazer-nos o mesmo”. Passei os dedos pelo meu cabelo. Não isso é uma coisa a que não sobreviveria” Segue-se uma cena de comiseração apaixonada. Depois:
Do canto onde se tinham reunido, as marxistas ortodoxas( não cederam nem um centímetro às recém-chegadas) veio uma voz de desacordo:
-Não vos ocorreu que a ordem para vos raparem a cabeça pode ter tido razões de higiene?
As mulheres de Suzdal, que há muito tinham considerado essa possibilidade, rejeitaram-na unanimemente.
-…Não, não teve nada a ver com higiene, quiseram só humilhar-nos.
-Bem, cortar simplesmente o cabelo a uma pessoa não é um grande insulto. Era muito diferente nas prisões czaristas, onde rapavam somente metade da cabeça!
Isto foi além do que Tania Stankovskaia (que estava a morrer de escorbuto) podia suportar. Por milagre arranjou força para gritar tão alto que todo o vagão a ouviu:
- É assim mesmo meninas! Um voto de gratidão ao camarada Estaline…Já não nos rapam só uma metade da cabeça, rapam as duas. Obrigada, pai, guia, criador da nossa felicidade!”



Journey into the Whirlwind (Helen and Kurt Wolff Books)
de Eugenia Ginzburg

(citado por Martin Amis em Koba o Terrível,pp69-70, Teorema 2003)

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