22 outubro 2008

Uma "concepção do mundo" e algumas ideias

(...) reforça a opção pelo trabalho de gestor profissional e abandona a política após 37 anos dedicados à "construção de um Portugal democrático mais justo e moderno, mais europeu e desenvolvido”.

dos jornais, 2007



"(…)

Mariline está cheia de ideias a respeito da hierarquia das riquezas. Deu os primeiros passos em Paris, em 1941, em Saint-Germain-des-Prés, tinha dezoito anos e chegara de Nantes; frequentou os intelectuais de esquerda, pagando à própria custa o prazer que sentia em ouvi-los discutir. Mais tarde, trocou sem desespero o seu quarto na rua Saint-Benoît por um estúdio no cais d’Auteil; a maior parte dos seus amigos comunistas tinham perdido a fé, à medida que se desfaziam as esperanças do pós-guerra; aqueles que se tinham “transferido para a produção”, como eles diziam, haviam vencido na generalidade, aplicando aos negócios a táctica e a estratégia aprendidas e praticadas durante as lutas pelo Partido ou no interior do Partido; eles tinham-lhe facilitado a passagem da Margem esquerda para a Margem direita do rio, das camisolas do Café de Flore para os vestidos de Balenciaga. Na altura em que principia esta narrativa, Mariline mora numa casa de seis divisões da praça da Madeleine, por cima de Hédiard, e tem um Giulietta Sprint oferecido por Saint-Genis. Mas guardou dos seus primeiros amigos uma “concepção do mundo” e algumas ideias, bem claras feitas as contas, a respeito das relações do capital industrial e do capital financeiro, das suas imbricações, da constituição dos monopólios, da inegável degradação da pequena empresa, etc.

A Truta, Roger Vailland (1964)

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