26 outubro 2008

O Joerg era um malucão porreiro


Edmund Kesting

Há uns anos uns sociais democratas que então governavam a Europa ficaram escandalizados com o povo austríaco, que dera muitos votos a um partido xenófobo e negacionista. Quiseram castigar os austríacos e ensiná-los a votar bem, que, como o señor C. explicou em Diário de um Mau Ano, é votar no cidadão A ou no cidadão B. O líder do tal partido morreu há dias, num acidente de automóvel. A viúva suspeita de que ele teria sido drogado. Mas quem acredita nas suspeitas de uma viúva? Um rapaz, o delfim do partido xenófobo, disse que estava inconsolável. O Estado austríaco, que é o Estado a quem tudo acontece, deu-lhe um funeral nacional. E os jornais respeitáveis do Ocidente (cf. Jorge Almeida Fernandes, no Público do passado dia 24) escreveram artigos a limpar o homem. Ele era um bissexual que tanto electrizava as mulheres (vejam a viúva Haider electrizada) como os homens (a crer no outing do afinal futuro ex-líder). Quem disser mal dele fica agora sob a suspeita de homofobia. O Joerg era um gajo porreiro, um malucão, com aquelas peculiaridades de não gostar dos emigrantes nem acreditar na invenção judaica do Holocausto. O Joerg tinha estado num bar gay durante a noite e de manhã foi dar um beijo à Mãe Haider, que fazia anos. Quem não se comove com um líder que alia a diferença à virtude, a loucura da noite com a compostura do dia, o amor aos homens com o amor dos filhos. A malta desculpa sempre um malucão, e até simpatiza. Venham os fascistas desde que a República seja de Saló.

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