13 janeiro 2009

O amigo


Rosalind Solomon

-Ele brinca com alguém que nós não vemos. Mas sabemos que está ali alguém. Ele oferece-lhe comida, troca brinquedos com ele. Fala para ele. Fica à espera de uma réplica.
- É o amigo imaginário, explicou o médico.
- Sim, deve ser amigo. Mas não é tão imaginário como diz. Ou tão amigo. Agora instalámos duas cadeiras de transporte no carro e quando saímos, temos de ter imenso cuidado. Com as precedências, com a forma como aplicamos os cintos e fechamos a porta. E este fim-de-semana esse...amigo, resolveu sair do carro e vir a correr ao lado, na estrada. Ao lado da janela de trás, coladinho ao vidro. Ele sorria-lhe, deu mesmo algumas gargalhadas, mas a certa altura zangou-se connosco. Foi quando percebemos que queria que conduzíssemos mais devagar.
- É uma fase de desenvolvimento, disse o médico.
- Claro, esperemos que sim, que seja uma fase. E os medos. Agora tem medo de tudo. Do barulho do aspirador, da máquina de lavar. Dos palhaços.
- É a fase dos medos, voltou a dizer o médico para quem tudo parecia normal e assustador ao mesmo tempo. Nas palavras do médico a máquina de lavar, sobretudo em funcionamento, era aterradora. Aqueles barulhos, as pausas, a forma como recomeçava, os turbilhões de água, o ronronar com que se anuncia o programa de enxaguamento.
- Está bem, é a fase dos medos e a fase dos amigos imaginários. É precisamente por isso que viemos falar consigo. Ele agora tem medo, mas medo até às lágrimas, medo de aparecer a fugir lá do escuro do corredor. Medo de quem? Do amiguinho imaginário.

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