08 janeiro 2009

Palácio Grassi: Italics (4)



Bellini está doente. Viu a exposição sempre sozinha, coincidindo com Bronx apenas num vídeo de um tal Francisco Vezzoli, que filma divas decadentes em cenários rococó, cantando hits italianos enquanto um jovem borda o que parece um rosto. Bellini diz qualquer coisa sobre a admiração de Bronx que queria dizer que ele não estava a perceber nada, o que era parcialmente verdade. Não estava a perceber mas estava a gostar.
O que não aconteceu sempre. Algumas vezes não estava a perceber nem a gostar - por exemplo quando os novos autores repetem sem citar. Ou estava a perceber e não gostava, como na instalação do que edita os pensamentos em lápides - pensamentos ligeiros demais para a pedra.



Percebia o Funeral de Togliatti, de Guttusi, sem vislumbrar o “gosto final” de que falava o comentário. Os comentários dizem, por vezes, coisas tolas, que lançam sobre a arte contemporânea a suspeita de diletantismo, pensa Bronx, baixinho e envergonhado por um pensamento tão pouco original.




Bronx fica a admirar o Palácio Grassi . Há qualquer coisa de estranho numa exposição que reúne os italianos contemporâneos (Italics) e onde predomina a Arte Povera, no último Palácio do Grande Canal, aberto pela intervenção de Ando. Outra coisa que Bronx não entende é o que resta da renovação de Gae Aulenti para a Fiat, nos anos oitenta. Os anos oitenta duraram vinte anos e deram lugar a salas claras, separadas por portas que são só gonzos encastoados em ombreiras de mármore muito claro. Um edifício liso, elegante, pronto para receber como uma página em branco
- O efeito “white cube”, diz Bellini.
as intervenções tão saturadas de significado da arte contemporânea.
No piso superior Bronx copia uma frase em néon sobre uma rede fina. - Se a forma desaparece a sua raiz é eterna, traduz Bellini. Ao lado está uma escultura disforme. Vista dali parece alguém que se move sem que se perceba para onde, um vulto trôpego, precipitando-se sobre si próprio. À saída Bronx volta-se por acaso e, do vão do hall central, dois pisos abaixo, vê de novo o vulto. Parece um anjo negro, abrindo as asas.





Renato Guttuso, Bagheria, 1911. Roma 1987
Mario Merz, Milão 1925 - 2003
Paola Pivi, Milão 1971. Vive em Anchorage
Francesco Vezzoli, Brescia 1971. Vive em Milão, em Serralves em 2002

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