18 março 2009

Como Bronze


Penedono 2009

Houve um tempo em que ao domingo, o pior dia da semana, na tarde de domingo, o pior momento da semana, eu ficava em frente da televisão. Os miúdos tinham crescido e acabara a época excitante em que víamos filmes juntos. E eu estava sozinho na sala, sempre sem perceber o tempo que passava entre o canal 2 e o canal 1. No fim do dia o que sentia era o vazio. Se acontecia alguém aparecer e interessar-se pela minha saúde dizia que me doía a cabeça porque nunca tive nome para aquela hebetude. Agora, que já não vejo televisão, acontece-me o mesmo com a leitura dos jornais de domingo, dos jornais de referência do fim-de-semana. As famílias felizes e a crónica de sucesso, o comentário dos que têm de escrever sobre a actualidade. Sou injusto. Se ganhasse o dinheiro a escrever decerto que escreveria bem pior que a Katia Delimbouef, sobre temas mais desinteressantes. Trabalho doze horas por dia. Quantas vezes sou mais superficial e fútil do que a Katia Delimboeuf. Porque razão hei-de pensar que a escrita, que é o meio de produção dela é mais nobre e imune à monotonia que o meu bisturi. Quando se escreve para os outros lerem, como às vezes aqui sucede, algumas precauções deviam ser tomadas. Não usar palavras como Sócrates, socialistas, oposição, Loureiro, alternativa, crise. Não pensar curto. Não pensar em nada que tenha sucedido nos últimos anos. Sentir. Sentir como sentem os receptores dos protoneurónios ou antes ainda, sentir em vegetal, como as raízes do ácer anão, a serem penteadas por um insano jardineiro de bonsais e arrancadas do caule . Vem isto a propósito de alguém que escreve pouco, duas colunas e uma foto supérflua, mas que escreve sempre para dar um sentido às coisas verdadeiras que o ruído sepultou. Paulo Varela Gomes, no P2 do Público. Como hoje, Bronze II, um texto curto em glória à Pátria do comandante Aragão e do primeiro-tenente Oliveira e Carmo, a pátria que tinha a comarca de Goa e era antes de África e dos modernos.

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