29 março 2009

Os anos 50 nunca existiram



Dois textos interessantes da imprensa do fim-de-semana: o de José Pacheco Pereira sobre um homem na Baixa de Lisboa à procura da crise e o de Clara Ferreira Alves evocando os anos 50.
A evocação de CFA desses anos perdidos da sua primeira infância lembra singularmente um grande texto de Stefan Zweig sobre O Império Austro Húngaro dos anos que precederam a Grande Guerra. Stefan Zweig não quis ver aquele “mundo admiravelmente ordenado segundo a convenção” em que Clara julga ter nascido. Ambos escrevem sobre o tempo mítico da infância, ou seja a partir das memórias de infância ordenadas pelos adultos que eram ou são- no caso de SZ um homem ameaçado pela desordem nazi fascista, no de Clara pelo incómodo da dissolução actual.
Ambos escrevem com nostalgia de um tempo que viveram do lado dos bafejados pela sorte.
Embora eu partilhe algumas das suas falsas memórias literárias, os anos cinquenta de Clara podem da mesma maneira ser descritos como anos de miséria e de ignorância, de medo e solidão, doença e injustiça.
Mas esses anos passaram e não teremos deles senão representações fragmentárias como as destas evocações.( A França , por exemplo, teve uma investigação megalómana dos seus Lugares de Memória, que um comentário de Tony Judt agora publicado numa reunião de textos refere : Tony Judt, O século XX esquecido, ed 70, sobre Les Lieux de Mémoire de Pierre Nora). A actualidade molda a imagem do passado. Refazemos o passado, seleccionamos factos, flashes, à luz dos tempos actuais. E o que são os tempos actuais? A crer no Expresso, um nojo. A última página dedicada a um caso contemporâneo de escravatura sexual, uma página interior sobre um médico pedófilo, o folhetim da nomeação do Provedor da Justiça, reportagens sobre as milícias que disparam pelo mundo cumprindo uma profecia de Umberto Ecco sobre a feudalização pós-mundialização, comentadores como o enfatuado Henrique Raposo, uma espécie de João Carlos Espada ressuscitado, que felizmente nos brinda com uma fotografia para que as nossas suspeitas tenham espessura.
No meio deste fogo de artifício dos Tempos Modernos- a absolvição dos corruptos, os fogos de Março como o efeito inevitável de um tipo de ordenamento do território, a insignificância distante do Presidente e a inimizade ridícula dos líderes dos partidos do centrão- aparecem reliquats do passado, ou que parecem sê-lo. Veja-se o espantoso texto de Jaime Nogueira Pinto sobre Nuno Álvares Pereira. À primeira vista surge como uma incongruência. A evocação de um santo numa linguagem beata, patriótica. Sucede que este santo foi um cabo-de-guerra e tem tudo menos de ingénuo. Ele é, como recentemente revelou, o inspirador, gestor e beneficiário de uma milícia armada ao serviço do Estado moçambicano. Foi o biógrafo oficial de Salazar e a testa de ferro da recente reabilitação do ditador de Santa Comba pelo voto televisivo. A linguagem que utiliza é cuidadosamente escolhida. Citação: “… casara aos 16 anos com D. Leonor de Alvim, uma dama nobre, rica, formosa, viúva e virgem de Entre-Douro e Minho. De D.Leonor teve uma filha sobreviva- D. Beatriz- por quem é antepassado da casa de Bragança e de metade da realeza europeia (…) Nun’Álvares - agora S. Frei Nuno de Santa Maria - esteve com eles, ao seu lado e à sua frente. Como está hoje connosco e com Portugal. “
Está a gozar. Não sei com quem. Mas está a gozar. Esta é a linguagem recomposta do fascismo. Os bons velhos temas, Portugal, o santo combatente,” o rapaz alegre e livre que não tinha medo de nada porque Deus estava com ele”, como uma foto de Leni Riefensthal com música de Wagner. Está a gozar. A escrever isto enquanto bebe uma cuca e com as mãos suadas conta os meticais. O afilhado de Salazar é agora também filho sobrevivo do Santo Condestável, esse ícone dos anos cinquenta. Que Bento XVI lhe dê as oportunidades que merece.

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