22 abril 2009

Camus na Figueira da Foz



Na praia da Figueira da Foz, aquele Verão, a minha mãe lia Albert Camus, A Peste, e um livro cujo título eu não compreendia , Calígula seguido de O Equívoco. Não sei se Camus tinha morrido. Eu pensava que todos os escritores estavam mortos há muito tempo. Os livros que lia, muito inapropriados para a tua idade, falavam sempre de um tempo que passara, ou que ainda não chegara à praia da Figueira da Foz, uma praia de vento, água fria e cabo-de-mar. Uma vez, para minha surpresa, o meu pai convidou para jantar um amigo poeta. Eu lera o livro dele e sabia de cor alguns poemas. Quando o poeta chegou não me desiludiu. Estava vivo mas talvez fosse um morto-vivo, de tal forma era magro e doente. Vinha com uma mulher que só podia ser a mulher dos poemas, linda e de voz clara como deviam ser as mulheres dos poetas. Deixei-os e fui às escondidas ao livro do poeta para reler o nome da mulher, embora soubesse o nome dela. E pensei que se quisesse uma mulher assim, bondosa e serena, de fronte alta e cabelo liso, teria que ser poeta, teoria que a Psicologia evolutiva viria a confirmar amplamente ao investigar o significado da arte.
Na praia da Figueira da Foz os mais ricos estavam na zona dos chapéus, chegavam tarde, tomavam banho às horas proibidas, tinham livre-trânsito para a piscina do Grande Hotel e óculos de sol para as olheiras da noite. As famílias remediadas alugavam casa em Buarcos, toldos na segunda fila. Chegavam cedo de mais, tomavam banho nas zonas protegidas, respeitando a bandeira, punham creme Nívea apesar de já haver Ambre Solaire, iam almoçar a casa e dormir uma sesta de onde raramente regressavam. A minha mãe lia Camus e eu pensava que Camus devia ser um notável escritor porque ela olhava longamente o mar ou interrompia a leitura para nos dizer que estava a ler um livro de uma pessoa excepcional.
Uns anos antes, Hannah Arendt, numa carta ao marido escrevia que Camus era “ o melhor homem da França”. Talvez a minha mãe pensasse, e pelos mesmos motivos, que não havia, em Portugal, um homem assim.

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