24 janeiro 2010

Recordação das mulheres de Palermo



Quando nasci a minha mãe adoeceu e alguém prescreveu a nossa separação. O meu pai organizou os cuidados à minha mãe e eu fui entregue, por motivos que nunca me foram revelados, a um tio materno que devia ser considerado, na altura, o membro da família mais disponível para a minha educação. Este meu tio era professor do Colégio Progresso, na parte velha da cidade. Tinha sido expulso do ensino oficial e ganhava a vida a dar aulas, no citado Colégio, e explicações aos filhos das famílias abastadas. Tinha uma governanta de bigodes. Nunca lhe vi outra pele que a que sobrava ao buço e lhe tingia as mãos. Durante muito tempo pensei que no mundo havia homens, como o meu tio, mulheres como a minha mãe, e seres de trabalho como a Lucília dos bigodes. Cresci na cidade, entregue aos cuidados avunculares e ao Pelargon da Lucília. O meu tio ensinou-me tudo o que sei da vida: ginástica sueca, a história do Peter Pan, a Eneida contada às crianças, o Prontuário do materialismo dialéctico, o nó dos laços de pescoço, as principais entradas da grande Enciclopédia Larousse, a matemática e a botânica. Quando achou apropriado deu-me um Billiard para principiantes e um ano depois, quando deixou de fumar, entregou-me a sua colecção completa de cachimbos. Na minha infância não houve mulheres nem animais. Quando a Lucília começou a envelhecer contrataram a Benedita, para ajudar. Tinha 14 anos e enlouqueceu os estudantes da rua, que começaram a fazer jogos florais e acabaram com tentativas de assalto, no horário escolar do meu tio. Nesse ano tive varicela e fiquei em casa uma semana, até à queda das crostas. Um sábado de manhã a Benedita foi ao mercado, comprou um coelho bebé e quando a Lucília foi visitar as amigas enfiou-se na minha cama com o orelhudo. Ficámos debaixo dos lençóis, em silêncio, a ver o muro do quintal e uma réstia de céu encoberto, até a Lucília entrar e enviar a Benedita para “onde nunca devia ter saído”. A doçura das mulheres ficou para sempre associada às doenças benignas, aos animais, à evicção escolar, ao céu nublado e à punição.

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6 Comentários:

Anonymous Ana GG disse...

Que se lixe, desta vez vou arriscar um tímido..."gostei tanto do texto!"

domingo, janeiro 24, 2010  
Anonymous candida disse...

:)
kixes de cuelho.

panado eheheh

domingo, janeiro 24, 2010  
Blogger Onyx disse...

Sim, li o texto, mas não é disso que vou falar... Primeiro fiquei muito espantada por aparecer nos próximos do vosso site, mas já agora que me querem manter lá... escrevam-me com "y" :). Gracias ;)*

segunda-feira, janeiro 25, 2010  
Blogger Luís disse...

Onyx, obrigado por ter lido o texto. A sua presença nos Próximos explica-se pela nossa necessidade de espanto. ;)*

segunda-feira, janeiro 25, 2010  
Blogger CCF disse...

Muito bonito!
~CC~

segunda-feira, janeiro 25, 2010  
Blogger Esparsa disse...

Este texto é belíssimo...

Na minha infância só houve mulheres. Mulheres de quem se esperava tudo e homens a quem não se pedia nada, a não ser que estivessem na mesa à hora do jantar. Mas eu tinha o papá, e do papá sempre tive tudo, sem ter que esperar nada.

terça-feira, janeiro 26, 2010  

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