12 maio 2010

Um segredo.



Diz-me ao ouvido o segredo de Fátima. O terceiro segredo. A segunda parte do terceiro segredo. Diz-me ao ouvido. Eu estarei de olhos fechados como os fiéis. A mente vazia mas o coração preparado para a revelação. Diz-me com palavras que eu possa entender. Eu hoje já vi os intelectuais do regime. Eram mil. E tu entre eles.
- Mesmo que venham a ser mil eu não serei um deles.
Disseste uma vez. Ouvi-te dizer. E não estava de olhos bem fechados. Nem precisava de ouvir com o coração. Nessa altura ouvíamos com a mente aberta. E não éramos intelectuais.
Estava a Fátima a oficiar no Canal do regime, acolitada pela Laurinda Alves. E o aldrabão, Sua Eminência para aqui e o IRS para acolá. Num instante arrecadou mil milhões. Mais mil milhões para ajudas de custo e para tamponar a grande hemorragia de capital dos BPNs a vir. E o povo a cantar o Rosário de vela na mão. Grande milagre era não chover. Grande milagre era os ricos pagarem a crise, como se dizia quando tu não vestias casaca para te sentares nos ofícios do CCB (facção Berardo). Grande milagre era o Bagão Félix levantar voo como um balão seguro pelo fio invisível de Sua Eminência, directamente saído da estola de arminho e das rendas brancas e fixo ao peitoral de ouro roubado em Potosí.
Nisso a cerimónia é diferente da que tu vias em miúdo, a preto e branco. Nessa altura havia milagres a sério. Mulheres de joelhos ensanguentados. Padres de batinas engomadas pela sujidade e pelo suor. Cegos. Paralíticos. Aleijados. Vinham das pensões de Fátima para a noite das velas e à passagem da Virgem começavam a ver e a andar, com o testemunho, a admiração e o aplauso da avó da Fátima do regime enquanto o teu pai resmungava:
- A religião é o ópio do povo.
E tu, a preto e branco, sonhavas com uma odisseia de 2001 que o Kubrick anunciara: homens e mulheres do futuro, modernos, cultos, para quem tudo aquilo era a pré história da humanidade.
E cá estamos, dez anos depois do futuro, ex-pós-modernos, em Fátima. Na mesma semana em que o Benfica foi campeão. Dizes-me ao ouvido essa revelação que ouviste no concílio dos intelectuais, mil e tu, no CCB. Dizes-me baixinho a segunda parte do terceiro segredo, esse prodígio do pensamento ocidental, da tradição greco-romana. Dizes-me de casaca, de preto e branco, como a televisão da tua infância, comos os pinguins, essa espécie reaccionária e monogâmica que confunde o buraco do ozono com a Ascensão.
Eu respeito o homem de 83 anos de idade. E a multidão ajoelhada em frente. Respeito-os mais do que aos do domingo no Marquês ou à estudantada que entrou hoje no quinto dia de coma intermitente. São como as multidões que poluem o Ganges. Ou os peregrinos de Meca. Aquecidos pelas suas endorfinas, excitados pela encenação após a caminhada e a espera. Não fazem mal a ninguém. Não saqueiam supermercados nem assaltam palácios.
E estou aqui, vencido, de olhos bem fechados, ao teu lado, entre os peregrinos. Hei-de esvaziar a bexiga nas dolinas da Iria. Diz-me o segredo. Diz-me ao ouvido.

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4 Comentários:

Blogger Ana Cristina Leonardo disse...

pois é, não está fácil... tudo.

quarta-feira, maio 12, 2010  
Blogger Cristina Gomes da Silva disse...

Grande texto! :-)

quinta-feira, maio 13, 2010  
Blogger blue disse...

dificilmente se poderia descrever melhor os estranhos, mas tão reconhecíveis, dias que vivemos.

sexta-feira, maio 14, 2010  
Blogger jagga nathan простй disse...

Não saqueiam supermercados nem assaltam palácios....pelo menos estes ...pelo menos por enquanto

sexta-feira, maio 14, 2010  

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