10 junho 2010

10 do 6


Scott King



Pedro Lomba escreve hoje um texto interessante na última página do Público. Diz ele que a direita tem vergonha de celebrar e a esquerda é avessa à própria ideia de celebração.
Lomba desenvolve depois uma teoria da celebração com a qual genericamente estou de acordo, embora, quando aprofundo, fique progressivamente confuso. Queixa-se ele de não celebrarmos convenientemente “ o princípio e o fim do ano lectivo, a atribuição de prémios e diplomas, a entrada e saída dos estudantes, etc.”
Não sei se é verdade.
Os meus vizinhos de cima, novos alunos da UC, estão desde Outubro de 2009 numa celebração contínua, com ciclos de médio entusiasmo, um pico semanal na quinta-feira à noite e um domingo de abatimento. De Outubro a Janeiro a Reitoria, a Associação Académica, o núcleo da Faculdade, a Filantrópica, o Instituto Justiça e Paz, a Opus Dei e as Jotas competem para que esta celebração não esmoreça. E em Maio, pontualmente, O Quim Barreiros e o Sex Sound System comemoram com os estudantes o fim do ano lectivo e o começo dos exames.
Não há falta de comemorações. Talvez Pedro Lomba gostasse de outra forma de comemoração. No que me diz respeito tento fazer o melhor. Quando me elegeram para o Sindicato dos Carteiros criei a Gala Anual dos Jovens Carteiros.
Nunca funcionou com a dignidade e a gravitas que Pedro Lomba decerto imagina nas celebrações que propõe e a mim não desagradariam. Um ano foi o cattering, no outro os audiovisuais, no outro o convidado que tinha a cargo a Palestra sobre a História dos Correios e a Malaposta.
A minha mãe, com quem discuti este tema, acha que quem sabia de comemorações era a Mocidade Portuguesa e a Legião e que não há celebração sem hinos, bandeiras e medalhas. Não é verdade. Uma das vezes, nos Correios, hasteámos bandeiras, distribuímos medalhas e tocámos o hino dos CTT na versão de 1970. O problema está nas pessoas. Por mais medalhas que usem, mais bandeiras desfraldem, mais hinos entoem, falta-lhes convicção. Falta a Raça, a Nação-étnica, o Inimigo. O meu tio disse que só fazia sentido comemorar a Cultura. Mas que cultura havemos de comemorar ? A cultura árabe de Mértola? A cultura da Expansão? A cultura de Dom Miguel e das passeatas a Colares? A cultura romântica? A Maria da Fonte ? A cultura higienista dos cemitérios ? A cultura das aldeias históricas? A cultura urbana dos shoppings? A cultura das províncias ultramarinas ? A cultura da luta anticolonial? A cultura dos CTTs privatizados? O Quim Barreiros? Ou a vocalista dos Doutor Pasavento?
-Todas!- disse o meu primo eclético.
- A de Bruxelas, que ao menos é supranacional – disse a minha prima que trabalha na Comissão.
- A cultura da paz- disse a tia Palmira, que não gosta de discussões e acha que está na hora do jantar.

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2 Comentários:

Blogger Isabel disse...

oh que querida a tia palmira.

sexta-feira, junho 11, 2010  
Blogger relogio.de.corda disse...

Um post bem interessante, este.

sexta-feira, junho 11, 2010  

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