07 junho 2010

São inocentes e culpados




O jornal El País de hoje, domingo, publica em destaque o diário de bordo de Henning Mankell, um dos tripulantes do barco interceptado pela marinha de Israel a 31 de Maio.
Mankell , de nacionalidade sueca é um escritor que El País considera" um dos grandes nomes da narrativa nórdica actual".
O registo inicia-se a 25 de Maio e acaba a 1 de Junho e reveste-se de grande interesse.

...la operación Ship to Gaza está por fin preparada, al parecer, y debo sumarme a los demás en Chipre.

Assim começa a descrição sumária da expedição de Mankell. Do meu ponto de vista seria importante que o escritor sueco nos dissesse alguma coisa sobre quem preparou e como foi preparada a iniciativa. Quem coordenava e com que apoios contava, políticos e materiais?
Quem o contactou? Que conhecimento teve ele sobre as organizações que a desenvolveram?
Esta elisão marca negativamente todo o registo de Mankell.

...de repente me desconcierta la sensación de que no he tomado conciencia plena de que se trata de un proyecto que los israelíes odian hasta tal extremo que seguramente recurrirán a la violencia para obstaculizar el avance de la flotilla- continua.
E mais à frente:
Se trata de una empresa totalmente definida también en lo que se refiere a ese punto: nosotros actuaremos sin violencia, no vamos armados, no existe la menor voluntad de enfrentamiento físico. Si llegan a detenernos, todo se desarrollará de modo que la vida de los participantes no corra peligro.

Nós…? Quem é este nós que decidiu esta estratégia? Como é que Mankell, um franco atirador bem intencionado segundo creio, pode assegurar que esta decisão será cumprida? Participou do processo de decisão? Que conhecimento tem, relativamente à liderança desta acção complexa, que o seu protesto individual será respeitado e não manipulado, utilizado para outros fins?

Depois de Nice, Henning Mankell vai para Nicosia onde, no Centrum Hotel, escreve:

De vez en cuando advierto la tensión que domina las relaciones entre los diversos grupos al frente de este proyecto tan complicado. El comedor donde desayunamos se ha convertido en una sala de reuniones secretas. Nos van pidiendo que entremos para firmar diversos documentos y para que dejemos constancia de quiénes son nuestros familiares más cercanos, en caso de que suceda lo peor. Todos firman sin pensárselo. Luego nos dicen que esperemos. Que estemos alerta. Son las palabras más usadas esos días: "esperar, estar alerta".

Não tinha consciência do ódio que Israel certamente devotaria a este processo e assina sem pensar diversos documentos. Para um activista intelectual este nível de informação é pouco abonatório. E mais uma vez choca esta véu envolvendo as lideranças : pedem-lhes que assinem. Dizem-lhes para esperar.

Dois dias depois acrescenta: Empiezo a preguntarme si no tendré que abandonar la isla sin haber subido a bordo. Al parecer, no hay plazas suficientes. Al parecer, hay listas de espera para participar en este proyecto solidario.

Não há lugares suficientes. Ele será escolhido. Com os obscuros turcos que, sabe-se agora, "queriam ser mártires", o novelista e dramaturgo sueco será escolhido. Quem escolheu? Porque o escolheu? Mankell não perguntou.

Mas “De repente, todo se precipita” . O sueco é chamado e, numa lancha rápida, levado ao cargueiro Sofia e posteriormente ao Mavi Marmara. O relato é sempre do mesmo tipo: dão-lhe a conhecer regras que não discute, não tem acesso a informação sobre as intimidações israelitas, não participa do processo de decisão. Carne para canhão, o intelectual europeu, espera “ a intervenção israelita”.
O resto do relato é surpreendentemente omisso sobre a confrontação que levou à morte e ao ferimento de muitos dos activistas.
O repúdio geral pela forma como a marinha israelita actuou já se fez ouvir. Quase metade da população de Israel partilha dessa condenação. Multidões reuniram-se no Irão e em outras ditaduras islâmicas, na Turquia e nas maiores praças da Europa.
A palavra foi dada a intelectuais como Mankell, que viveu, como relata, horas terríveis.

Mas não será legítimo pedir aos intelectuais europeus, quando se envolvem em acções concretas de apoio humanitário ou político aos palestinianos, que percebam com quem vão e leiam os documentos que assinam.

Os intelectuais europeus estão sempre disponíveis para estas aventuras . Como, noutro contexto, disse Justo Navarro a Vila-Matas:
“ Fazem isso porque são inocentes. São inocentes e culpados ao mesmo tempo.”

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8 Comentários:

Blogger isabel disse...

bem que eu gostava de saber quais foram as tuas intenções aos escreveres este texto.

segunda-feira, junho 07, 2010  
Blogger Luís disse...

isabel, eu admiro aqueles que, como este escritor sueco, passam das palavras à acção. mas o que choca neste diario que espero tenhas lido é a ocultação do que está subjacente à acção e para mim é determinante. esta ingenuidade levou no passado algumas pessoas verdadeiramente generosas a participar em manifestações pela paz encomendades por fabricantes de bombas. as minhas intenções são claras mas estou pronto para as explicitar melhor, se for o caso.

segunda-feira, junho 07, 2010  
Blogger Ana Cristina Leonardo disse...

naquela zona do mundo poucas coisas são claras, excepto que estão - israelitas e palestinianos - obrigados a aturarem-se mutuamente; a alternativa é uma guerra de destruição a que nem alá nem o messias por vir conseguirão pôr cobro. lá no fundo, embora isso já não interesse nada, a culpa é dos ingleses que, como sempre fizeram nas ex-colónias do seu majestoso império, semearam a confusão e depois piraram-se lavando as mãos.

segunda-feira, junho 07, 2010  
Blogger Alexandre Monteiro disse...

Mankell domina a técnica do romance policial. É competente e usufruiu da onda criada por Stieg Larson. Mérito.

Vivendo em Maputo assiste de perto as mazelas da corrupção, do despotismo e da violência endémicas em África.

Não havendo uma frota da «liberdade» para melhorar a vida das minorias da Nigéria, ou para protestar contra as mazelas da autocracia da Guiné Equatorial ou ainda denunciar a cleptocracia de Luanda, partiu então cheio de boa vontade para Gaza.

Sempre na onda. Como compete a um intelectual militante.

Afinal, todos os oprimidos são iguais. Mas alguns são mais iguais do que os outros...

segunda-feira, junho 07, 2010  
Blogger isabel disse...

se eu fosse muito parva espantava-me agora "o que te move, Luís, quanto te pagam eles para os defenderes tão incondicionalmente?". Porque o que me parece, sinceramente, é que a tua preocupação com a pretensa ingenuidade deste escritor é isso mesmo apenas um pretexto para chegares onde queres chegar. era essa a minha pergunta.

segunda-feira, junho 07, 2010  
Blogger Luís disse...

Obrigado a todos pelos comentários.
Ana Cristina, a culpa é dos Romanos.
Alexandre, também pensei nisso. Uma frota da liberdade para vacinar as crianças em África, retirá-las das minas, não as deixar escavar o chumbo com as mãos desprotegidas.
Não dá uma página interior em silly season.
Isabel: sou pago pela Mossad. Tu devias saber. Movido a ISLs.

segunda-feira, junho 07, 2010  
Blogger Ana Cristina Leonardo disse...

A culpa é dos romanos
(ainda me estou a rir...)

terça-feira, junho 08, 2010  
Blogger Berantakan disse...

Aplauso para a isenção, para alguns surpreendente, da análise.

terça-feira, junho 08, 2010  

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