26 julho 2010

Arrumando os livros (1)


foto do arquivo website de Enrique Vila-Matas

Arrumo os meus velhos livros em estantes novas. E dou aos meus escritores o relevo que merecem. De alguns tenho só um exemplar. Às vezes envelheceu, mirrou, livro múmia, ou amareleceu como um velho na esplanada. Outras vezes é uma urna de cinzas à espera de serem espalhadas: a Súmula de Herberto Hélder ou o Toldo Vermelho de J.M. Magalhães. Ainda não encontrei Le Grand Meaulnes, livro único. Mas sei que, como o autor, não envelheceu e continua a ser o livro que se deve ler no fim da adolescência. Falta-lhe a página 17 que rasguei para dar à G., que era a minha namorada pouco romântica. Se ela guardasse essa página podíamos restaurar o livro, mas o amor perdeu-se, entre a folha rasgada e o livro incompleto.
Vejo o corpo esquartejado de Jorge de Sena, alinhado tal como o conheci. Primeiro O Físico Prodigioso depois as Novas Andanças do Demónio e a seguir as Andanças à mistura com a Poesia, onde brilha, com a data de 1969, o Peregrinatio ad loca infecta . Em 1969 Sena tinha 50 anos e havia de morrer oito anos depois, de desespero, desilusão e casmurrice, características que anunciam a morte e a tornam um secreto alívio para os familiares e conviventes.
Vejo agora o corpo de António Franco Alexandre, desde os folhetos insignificantes das Iniciativas Editoriais e da Centelha até à surpresa de Quatro Caprichos, que revisita a deriva da contemporaneidade e à sumptuosidade perfeita de Uma Fábula, Duende e Aracne.E o corpo magrito de Manuel de Freitas e amigos, ainda com muitas tascas para visitar, muita música para ouvir, muitos anos de morte à sua frente. E o corpo gordinho de Ana Luísa Amaral, agora confundido com a sombra de Emily Dickinson.
O corpo de Borges, estendido e de bengala, uma prateleira inteira de livros dos homens que leram para Borges, saíram com ele, cruzaram Borges numa rua de Buenos Aires, editaram o primeiro volume do Aleph. O corpo de Borges não repousa no livrinho de Maria Kodama mas no gigantesco calhau de 1600 páginas que Adolfo Bioy Casares escreveu, como um diário, ao longo dos anos que durou a amizade entre os dois.
Vejo o corpo de Hélder Moura Pereira, encapado na edição da sua Antologia De novo as sombras e as calmas, na Frenesi e depois com a dignidade da Assírio. Abro e leio

Essas linhas já não tinham, por assim dizer,
lógica nenhuma. E eu, tonto, lá ia.


Vila-Matas ocupa um compartimento. Entre a Anagrama, a Assírio e a Teorema dezoito volumes. Nada mau para um escritor que queria desaparecer. E nada portátil.
Os excelentes tradutores portugueses de Vila-Matas são José Agostinho Baptista e Jorge Fallorca, dois pequenos corpos sem arrumo possível, mas que não ficam bem ao lado Vila-Matas. Os corpos que, na minha biblioteca, se dão com o corpo brilhante de Vila-Matas são o corpo de Sebald, de Duras, de Sérgio Pitol, de Walser. (continua)

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4 Comentários:

Blogger Isabel disse...

pobres dos meus livros, em segunda e terceira fila, os detrás inevitavelmente esquecidos, que olhos que não vêem...

arrumar os livros é tarefa fantástica de revisitação e pelo menos esta-se à fresca.

continuarei a seguir o arrumo

segunda-feira, julho 26, 2010  
Blogger fallorca disse...

E seguirei :)

segunda-feira, julho 26, 2010  
Blogger fallorca disse...

Luís, ao reler (sem tresler) o seu texto, surpreendeu-me que chame «folhetos insignificantes» aos livros de A.F.Alexandre publicados pelas Iniciativas Editoriais. Foi com essa chancela que saíu (e terá) «Sem Palavras Nem coisas», talvez por seram insignificantes.

quinta-feira, julho 29, 2010  
Blogger Maninha disse...

Tenho os meus por editoras, o que dá muito mais trabalho para procurar o "corpo" de um escritor. Acho que vou mudar tudo :)

sábado, julho 31, 2010  

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