19 julho 2010

Io sono l' amore






O começo é fascinante.
Uma narração segura. Uma casa que se vai conhecendo, uma ordem que se desenha, três gerações e o charme discreto da burguesia. Dizem que teve e é forçoso que em algum lugar deva ter tido.
Depois há pequenas falhas que comprometem irremediavelmente este filme apesar de tudo invulgar.
Tilda Swinton parece uma montra da Prada. Tenho pena de chocar alguma alma frágil: quando o cozinheiro a abana, na cabana do amor, chocalham as etiquetas. O que fica pelo chão não são quatro peças de roupa elegante, são oito salários mínimos dos europeus na época da decadência do Estado social. O que fica nas mãos do cozinheiro bulímico não é o corpo magnífico de uma mulher de meia idade. É um absurdo documentário do National Geographic ou do canal Odisseia sobre a vida dos insectos. Despropositado como elipse ou como metáfora, demorado até ser quase penoso. David Lynch tinha usado o estratagema em Velvet. Mas o que aí era o insecto de Blake, ou a maldade que a lente macro revela, a crueldade dos micromundos, é aqui decorativismo sem sentido.
O filme já resvalara sem remissão na cena em que Tilda Swinton se apaixona pelo cozinheiro molecular. Uma mulher que se apaixona por um prato de gambas só pode ter sido muito mal amada, educada nas berças estalinistas ou a mulher-esposa sequestrada de um industrial têxtil.
E por aí adiante. Estereótipos sem profundidade: o filho generoso e amigo dos operários, a filha lésbica, a governanta fiel, o cozinheiro que parece saído de uma revisitação de Pasolini , como o anjo proletário de Teorema, que desta feita vem anunciar a queda da família italiana às mãos da coligação entre o inimigo interno (o já demasiado falado aspirante a chef-de-cuisine) e o externo ( o financeiro indiano).
O filme é habilidoso. O início deslumbrante, a Villa Necchi Campiglio , a marcação cuidada das cenas, a alta costura, o embrulho cultural e a caução de Tilda Swinton enganam as raparigas românticas.

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4 Comentários:

Blogger redonda disse...

Não reparei nas etiquetas da roupa e nos esteriótipos.
Gostei do filme e gostei desta crítica.

segunda-feira, julho 19, 2010  
Blogger blue disse...

eu, rapariga romântica, confesso.

(ainda que a história me parecesse um pouco mais complexa, diria que o cozinheiro gostava do rapaz que também gostava dele e fingia que não o sabia, que pelo meio ficam uma noiva sonsa e a mãe, uma mulher que veste roupa aborrecida, sem esquecermos a sopa, a arma do crime)

apesar da sensação de déjà-vu, de meia-dúzia de clichés, do absoluto desencanto de um final previsível e desprovido de esperança, gostei do filme.

(vá-se lá perceber as raparigas românticas)

segunda-feira, julho 19, 2010  
Blogger Brasilino Pires disse...

Il amore?
Il? Fosga-se...

terça-feira, julho 20, 2010  
Blogger Luís disse...

Brasilino :)

terça-feira, julho 20, 2010  

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