03 novembro 2010




Chove imenso na cidade de L. No bar A Nossa Terra há grupos que fazem fila junto ao balcão. A rapariga do outro lado chama-se Gloria e casou-se com um português. Ele era pedreiro e agora está desempregado. Em Novembro terão duas semanas de férias e irão para Guimarães. Gloria está triste. É talvez a única pessoa triste nA Nossa Terra. O guarda redes brasileiro do Almeria não está triste, mas cansado. Tem de responder às perguntas dos jornalistas do programa da noite, espreitar pelo canto do olho os sms que não param de correr na tira da pantalha e preparar-se para as surpresas que a realização lhe reserva: colegas de profissão revelando aspectos da sua intimidade. Se ele tivesse à sua frente a defesa do Real ou do Barça. Se ele já fosse o titular da selecção. A rapariga que de manhã cedo atravessa a Plaza del Campo na direcção da Calle de la Cruz, equilibra-se nos saltos e parece indiferente à chuva e ao frio. Num dos vértices da Praça, o rapaz pede-lhe um beijo, finge caminhar na direcção da Catedral, volta-se para trás furtivamente, faz uma chamada no telemóvel e muda de direcção para a Calle Tineria. À porta da Catedral está um homem de mãos enormes que segura a tremer uma peça de cobre . Os fieis são velhos . O INEM entra sem interromper o culto e avalia discretamente a Pressão Arterial de um ancião. Um dos padres oficiantes aproveita e arregaça o braço. Um casal matou a filha, lançou fogo à casa e foi esconder-se numa fossa séptica. Letizia Ortiz, refém dos Borbon, embalsamada em vida por amor de um príncipe que não teve tempo de amar, está como a Virgem dos Olhos Grandes: a tudo assiste, impassível, não diz nada, nunca mais falará.

1 Comentários:

Blogger Luis Eme disse...

tanta coisa estranha, normalizada, na Nossa Terra...

quinta-feira, novembro 04, 2010  

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