16 novembro 2010






Estou no meio de uma multidão. Sozinho, numa multidão de condenados que ignoram o seu destino. Tenho uma vantagem sobre os infelizes que vagueiam à minha volta. Sei que nos espera um desfecho de morte. Que entre a multidão há homens armados e preparados para uma chacina. Talvez disparem indiscriminadamente. Talvez nos estejam a conduzir para um ponto sem retorno, onde as ruas se afunilam para estações onde aguardam as composições que rumam para leste, carregadas de gado.
Não conheço ninguém, ninguém me fala. Mas eu sei, e esse saber dá-me uma enorme superioridade. Posso escapar ao meu destino. Posso gerir a minha fatalidade. Posso escapar. Reconheço os meus algozes. Estou ainda longe deles e posso fugir, inverter a marcha, insinuar-me numa viela lateral, procurar refúgio numa porta aberta.
E então reparo que é tarde de mais. Que todas as portas se fecharam, a multidão pressiona na direcção dos esbirros, já não sou senhor dos meus passos, vou na maré, já não respiro, já a cabeça, e agora o tronco, se dobra ao seu destino que é o destino comum do gentio ignorante.

2 Comentários:

Blogger Filipa Júlio disse...

ui.

terça-feira, novembro 16, 2010  
Blogger margarete disse...

Luís, é muita generosidade deixar-nos aqui esta escrita
quer seja dia após dia
dia sim, dia não
independentemente da periodicidade
é dar
e eu aqui venho sempre, sem expectativas (que essas defraudam-se), receber
com tranquilidade
"deixa cá ver o que este amigo nos diz sobre nós"
vou embora,
levo sempre algo mais comigo, mesmo que por vezes doloroso, sempre belo

um bom dia para ti

quarta-feira, novembro 17, 2010  

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