01 junho 2011

A esquerda e as eleições


Dr. Gica, pescada nº5

Este post, que foi amavelmente publicado nas páginas da Joana e da Elisabeth, mereceu comentários que agradeço (a todos e especialmente ao Joaquim ) e aí podem ser lidos.
É bom ter comentários não laudatórios. O tom deste post é demasiado reactivo.
Os estados maiores dos partidos montam, a propósito das eleições, um circo mediático esmagador. Como os partidos do poder dominam os meios de comunicação, os seus argumentos são repetidos até à exaustão. O conjunto dessa argumentação tem uma estrutura coerente e é aquilo a que poderíamos chamar de ideologia dominante do momento. Essa ideologia esconde-se a si própria e apresenta-se quase sempre como uma evidência desencarnada, a-histórica, para lá dos “conceitos ultrapassados de direita-esquerda”.

Os seus aspectos fundamentais são:
1. O fatalismo.
O sistema económico não é posto em causa. As crises são inelutáveis, castigos de deus, como as pestes medievais ou o pecado original.
2. A amnésia histórica.
Não há culpados. A desigualdade social, a exploração e a corrupção são esquecidas. Espantosamente, a crise é vista, e as suas saídas, “do ponto de vista dos credores” , para usar a expressão tão feliz de José Medeiros Ferreira
3. A assunção da impotência das multidões.
O FMI, a EU, o BCE são entidades divinas, existiram sempre, uma espécie de Sacro Império em que a senhora Merckel fosse Carlos Magno. A única atitude possível para com as suas decisões é a conformação passiva.
4. Uma democracia menor
A democracia encarada como um sistema fechado, em que a participação popular se esgota em eleições formais, administradas por partidos geridos por profissionais irresponsáveis, desligados da realidade e mais preocupados em agradar e gerir as suas clientelas do que com o interesse geral.

Esta é a ideologia espontânea, segregada pela esmagadora maioria dos políticos, jornalistas, comentadores e bloguistas.
Por vezes tento ignorá-la. Olho para a natureza, interesso-me pela ciência, pelas bicicletas que passam,uma página de Julian Barnes (Não há que ter medo) e, ao contrário do que sucedia ao Álvaro de Campos, caio nas armadilhas do cérebro humano e o universo parece reconstruir-se com ideal e esperança.
Outras vezes é demais. Tanto PSD já tão impante, tanto Sócrates, tanta Câncio, tanta pomba assassinada, tanta gente conformada, tanto banqueiro anónimo, tanta agência de rating, tanto conselheiro de estrado. Um homem não é de ferro.



PS: As fotografias deste blog, quando não têm autoria declarada, são de André Bonirre ou minhas (as piores).
Esta é do Dr. Gica, dos pescadas nº5.
O Dr. Gica não partilha as minhas posições políticas. A miuda da bicicleta também não, tal como sucede com as que ocasionalmente aqui surgem. Bendita seja a sua existência e, se tal for possível, que nos perdoem o desrespeito leviano pelo direito de imagem.

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8 Comentários:

Blogger Hugo Besteiro disse...

hmm..

o gica não sei.. a miúda dirige-se claramente para a esquerda :)

quarta-feira, junho 01, 2011  
Blogger DrGica disse...

a minha posição é, incontestavelmente, à esquerda da menina.
DrGica

quarta-feira, junho 01, 2011  
Blogger graça anibal disse...

Um homem não é de ferro e uma mulher também não. Porém abençoado cérebro que tem destas armadilhas. Dá para retomar o fôlego.
Magnífico blogue!
GA

quarta-feira, junho 01, 2011  
Blogger Ana Cristina Leonardo disse...

uma mulher também não. de ferro, entenda-se.

quinta-feira, junho 02, 2011  
Blogger el comunista disse...

Mas se o sistema económico capitalista não é colocado em causa, só pode ser porque a dita esquerda parlamentar o BE e o PCP,se acomodou ao sistema e dele quer fazer parte.

Sobre esta questão e sobre o próximo acto eleitoral, leiam o artigo publicado pela A Chispa!, blog comunista.

"achispavermelha.blogspot.com"

A Chispa!

quinta-feira, junho 02, 2011  
Blogger Antônio disse...

Síntese política perfeita. Pena confirmar minhas crenças depressivas sobre a impotência das multidões e a atuação dos partidos políticos. Por que chamar o ilumunismo por este nome? A ideia da democracia está sendo apagada, da Federação Russa de Putin, passando pela Arábia e África, batendo em cheio sobre Europa e América. Criamos problemas demais e falta-nos consciência para resolvê-los. Talvez tudo isto seja fruto de lembranças atávicas das fomes que devastaram a humanidade preistórica (é assim, com a reforma ortográfica?)reeditada pela fome da batata irlandesa. Talvez a crise econômica atual esteja destruindo as possibilidades de realização social e só com sua superação haja um retorno à fé no crescimento, raiz do iluminismo. Talvez. Ou talvez não. Quem sabe: Como será? Como vai ficar? Não se pergunte aos governos, preocupados demais com sua própria salvação. Haverá novo dilúvio, deste vez verdadeiro?

quinta-feira, junho 02, 2011  
Blogger Maria José Vitorino disse...

Bendita saturação que a tais textos te move. Ao próximo combate, que é já este. Crise é caminho, aind que perigoso, ou não?

sábado, junho 04, 2011  
Blogger di disse...

Magnífico, Dr. Gica. Uma excelente prosa e uma brilhante síntese da actualidade política.
As fotos acompanham bem o texto.Parabéns aos autores e difusores da informação.

segunda-feira, junho 06, 2011  

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