20 julho 2011

Como sabemos quando começar?



O livro de Julian Barnes sobre a morte, editado pela Quetzal com o título Nada a Temer , e tradução de Helena Cardoso, tem imensas referencias valiosas e remete para outras autorias. É o caso desse genial Jules Renard cujo centenário da morte foi há pouco lembrado, Daudet, Zola, Montaigne ou, do outro lado do Canal, Bertrand Russel. Um deles ficará na penumbra e por isso é aquele que mais me fascina. No decurso do processo criativo, Barnes consulta a sua médica de família e percebe que ela também se ocupa do mesmo tema . Depois da consulta ela envia-lhe o manuscrito de uma conferencia que tem em preparação. Ficamos a saber as suas influências e que alguns pontos de vista da clínica não coincidem com os do seu singular paciente. Mas nunca nos é revelado o nome, nem os principais conteúdos da comunicação, onde foi produzida ou eventualmente publicada.
As referencias literárias da médica de Barnes, que ele não partilha nem com as dele se cruzam, são as melhores: Beckett, T.S.Eliot, Milosz, Sebald, Heaney, John Berger. Barnes constata as diferenças na abordagem mas recolhe do escrito da sua médica uma imagem fortíssima: dos retratos de Faium. Faium, ou el-Fayyum, é uma região do Egipto célebre pelos retratos fúnebres dos séculos I a III antes da nossa era, que se colavam aos corpos mumificados com o objectivo destes serem reconhecidos no Além. Barnes, ou a sua médica, espanta-se com esta estranha colaboração, que se estabelecia entre o artista dessa obra única e o cliente assim retratado, que vê na perfeição do retrato a possibilidade da salvação pessoal. E encara-a como a metáfora da relação médico-doente (moribundo) no tempo de preparação da boa morte. Surge então a pergunta perturbadora, como quase tudo no livro: “Se assim é, como sabemos qual o momento de começar? “
Eu gostava de ser este médico, ou o seu doente (de preferência não-moribundo) . Lendo Eliot e Mislov (cuja Obra Poética foi traduzida para o castelhano e publicada no Círculo de Lectores), lendo Sebald. E procurando, na literatura e na vida que resta, o retrato que se cola ao corpo decadente e irá perdurar, incorrupto, como a fotografia apenas um pouco desactualizada que os velhos editam no facebook.

Na foto:Joana Costa na sessão do velho Bloco, Março 2011

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4 Comentários:

Blogger Ana Cristina Leonardo disse...

um abraço, luís

quarta-feira, julho 20, 2011  
Blogger isabel disse...

Coincidência, ou não, esta noite li o livro sobre a morte (rica leitura p'ra noite) da M. Filomena Mónica, também por lá anda Montaigne, a par com os antigos, Séneca, claro. Mas não retirei muito do que li.

bjs


I. Prata

quarta-feira, julho 20, 2011  
Blogger Maria dos Prazeres disse...

Maravilhoso

quarta-feira, julho 20, 2011  
Blogger Luís disse...

Ana Cristina, um abraço, também.
isabel, e deste post, retiraste?
Prazeres, maravilhosa és tu, se fores quem eu penso.

quarta-feira, julho 20, 2011  

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