17 fevereiro 2012

My Panton-Valentine

Publicada no sábado 11 de fevereiro no jornal i. A crónica desta semana é sobre os cornos do cabrito .





Estou sentado na mesa que preside a uma reunião médica no anfiteatro de um hospital. O lugar é antiquado e desconfortável, com uma lotação de 200 pessoas. Tem um corredor central e dois laterais, um palco demasiado elevado e uma mesa onde, em cursos deste tipo, a organização costuma colocar os nomes dos conferencistas e do moderador, uma bandeira da organização e, antes dos cortes, uma coroa de flores, geralmente fúnebre.
À minha frente, na assistência, os participantes de uma importante reunião de formação, creditada pelas sociedades científicas da especialidade.
Nas duas filas da frente sentam-se os chefes de serviço e os especialistas mais antigos. Na primeira fila, do lado direito, os convidados estrangeiros e os organizadores de estatuto mais elevado. Os responsáveis mais jovens posicionam-se depois da terceira fila, junto à parede. Em lugares mais interiores da mesma fila estão dois internos do serviço anfitrião. No fundo da sala há médicos mais jovens de outros hospitais. Nas sessões da tarde é permitida a entrada a internos do hospital e do ano comum, o ano de residência após a licenciatura e que precede a formação especializada. Como provavelmente não se inscreveram, sentam-se nas escadas de acesso ou ficam de pé, junto às paredes.

Kathryn Montgomery, num estudo observacional, chamou a esta distribuição a exibição da hierarquia e caracterizou-a do seguinte modo:
1. Os professores sentam-se à frente e os estudantes atrás. No meio sentam-se os internos e os especialistas. Ela chamou a este esquema a distribuição tripartida, hierárquica, da frente para trás.
2. Algumas excepções reforçam o papel da hierarquia: sentar-se fora da fila por exemplo. Ninguém o faz, num lugar acima do seu estatuto, se não for convidado ou não for apresentar um caso.
3. Variações: a posição lateral é um gradiente secundário de poder. Um lugar de coxia é mais importante que um lugar interior. Um lugar de parede, sobretudo se escolhido antes da sala encher, é símbolo de humildade. É aí que se sentam os mais cansados, que fizeram noite ou não querem ser notados.
4. O tempo de permanência na firma altera o plano e esbate as regras.

Em 1887 André Brouillet pintou o quadro Uma aula clínica na Salpêtrière que hoje pode ser visto na entrada do Museu da História de Medicina em Paris . A distribuição é semelhante. Na primeira fila, ligeiramente destacado, está Gilles de la Tourette. Ao lado, Bourneville , Parinaud, Pierre Marie . Outros médicos e curiosos estão de pé, junto à parede. Só três mulheres: Blanche Wittman em transe hipnótico, apoiada por Babinski, no verdadeiro centro da composição, uma jovem auxiliar de enfermagem e uma outra mulher, a discreta Marguerite Bottard que se notabilizaria como paladina da enfermagem laica e a quem Gilles de la Tourette dedicaria uma memória.

No estudo de Kathryn Montgomery o género tem pouco relevo. E hoje, neste anfiteatro, também. Tudo o que foi escrito no masculino poderia ter sido no feminino. De facto a maior parte dos participantes são mulheres. Mulheres jovens, sem idade e de meia idade. Há um ano, frequentando as aulas do sexto ano médico, algumas destas mulheres eram completamente desinteressantes. Cabelos mal lavados, farda de estudante, pele cansada de noites sem causa - nem boémia nem estudo intensivo. Agora têm óculos geek chic, ombros decotados, saias curtas com leggings pretos, sapatos de tacão altíssimo. Em poucos meses transitaram do modo colegial deslavado para o de mulheres fatais ou pesopluma. Às nove da manhã, hora em que é suposto só haver ciência e fome de torradas, vi uma franja que faria a inveja das preciosas e pestanas postiças de tamanho XL. Há meia dúzia de homens na sala. Não têm nada de particular. Para a investigação sociológica a que neste instante me dedico não ocupam nenhum lugar de relevo. Estão dispostos pela sala e distinguem-se pelo brilho das fontes luzidias. Não merecem menção. Agora uma mulher entra na sala e desce as escadas centrais. Como os degraus são longos ela tem de dar um passo intermédio mais curto e isso quebra-lhe o corpo e fá-la avançar com a marcha quebrada dos modelos nas passerelles, exagerando muito a proeminência das ancas. Noutra circunstância, uma entrada assim numa reunião dedicada às malfeitorias da toxina Panton-Valentine leucocidina do S. aureus, teria feito história. Nesta cidade das mulheres, neste gineceu enlouquecido, nada será notado. Num mundo sem McGarrigle não há espaço para Angelica Pabst nem para Helen Reed. A dominância de género é tão esmagadora que os raros homens se habituaram a lavabos cor de rosa e a folhear a edição espanhola da Vanity Fair . A mulher continua a descer a escada enquanto eu penso que aquele deve ser o trend pesopluma da Primavera-Verão 2012 e que Panton -Valentine é um nome lindo para uma tinta de parede.

2 Comentários:

Blogger Medeia disse...

A descrição da disposição dos participantes recorda a hierarquia dos deuses no Olimpo, quando em consílio debatem o futuro dos portugueses na epopeia camoniana...
Porque será?

Um abraço.

sábado, fevereiro 18, 2012  
Blogger maria disse...

Bom observador e excelente descrição. :)

quinta-feira, fevereiro 23, 2012  

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