08 fevereiro 2012

O frio


Charlotte Perriand

Crónica publicada no jornal i no sábado 4 de fevereiro de 2012. A próxima crónica doi será publicada a 11 de fevereiro, sábado.



Este Inverno enfrentámos o frio de peito aberto. Nem lareira, nem aquecimento central. Como vivemos num antigo presbitério, o ar frio da serra entra pelas frinchas e varre os cantos da casa. Conheço-lhe as voltas. O corredor, a sala, os quartos. O sítio mais protegido da casa é a cozinha. O fogão aquece o aposento e podemos comer, beber e conversar até recolher aos quartos. Já não há crianças pequenas. Mas nunca vi crianças a queixarem-se do frio. Como a densidade dos receptores do frio é maior na ponta do nariz, talvez as crianças não sejam especialmente sensíveis. Os mais novos da casa são agora adolescentes. Usam T shirts. Uma, acima dos 18 graus. Duas, entre os 18 e os 8. E abaixo dos 8 deitamo-nos todos, seja qual for a hora. E os cães connosco. Nesses dias o burrinho Jammes tem autorização para entrar e dormir na saleta. O burrinho Jammes é o mais popular dos membros da nossa família. Quando vamos ao mercado da vila ele precede-nos. Como escolhemos sempre o mesmo, as vendedoras preparam os produtos à sua chegada. Só compramos queijo, leite e legumes que não se dêem nas hortas dos vizinhos, onde as curgetes crescem particularmente bem. À terça feira há peixe fresco. Os mais novos sabem recolher cogumelos, cominhos, hortelã, manjericão. De vez em quando apanhamos as castanhas que atapetam as encostas.
Lavamo-nos aos pedaços. Agora acabaram-se os duches. Este inverno a Morsa e a Raposa seguiram o exemplo das mulheres e todas usam os cabelos curtos .
O frio é bom, revigorante.
— O frio faz-nos sentir vivos— dizem os mais velhos. No verão o sol fica parado no meio-dia e se algo acontece é devagar. Nenhuma revolução se fez no verão. O frio pára a decomposição dos corpos, seca as gorduras, limpa o ar das poeiras e dos insectos. O frio é rigoroso. No frio as mulheres são mais altas, mais ásperas e os amantes mais esforçados e inventivos. As crianças crescem mais nos meses frios, concentram-se melhor, sobretudo longe do mar e das cidades marítimas.
O frio repõe a ordem que o verão perturbara, põe fim à estouvada exuberância do verão, apaga os fogos, leva a água às fontes e gela os lameiros.
O calor acelera a decomposição dos corpos. Os homens andam descalços, de calções. Só o frio dá dignidade, gravitas, acutilância. Não há imobilidade com o frio. Aqui todos ajudamos: a dar comida aos animais, durante os cozinhados, a pôr a mesa, lavar a louça e arrumar a cozinha, tirar as mantas dos armários. Se algum lê alto um excerto de livro fá-lo em movimento, da cozinha para a sala e da sala para a cozinha. E quase todos o acompanham ou, quando são muitos, balanceiam o corpo de um pé para o outro. Esta leitura acompanhada, peripatética, é o nosso maior divertimento, o calor do nosso serão. Descobrimos que em movimento se lê melhor, se ouve melhor, se pensa melhor. É assim que os mais novos preparam os testes, os do meio as intervenções de maior responsabilidade e os mais velhos põem em comum as suas leituras. Percebemos que alguns autores, mesmo consagrados, não resistem à leitura peripatética, enquanto outros aguentam perfeitamente o frio. A decana da família tem agora 93 anos e não suporta tanta correria. De forma que se senta na soleira da cozinha e à medida que nos afastamos dela temos de aumentar a altura da voz para ter a certeza de ser ouvidos. Esta semana, a Raposa leu o poema Visto do Alto, de Wislawa Szymborska, de quem todos gostamos . É um poema sobre um besouro que está morto na estrada do campo. A certa altura a Raposa leu:

E eis aqui este besouro morto no caminho,
num estado indeplorável, luzindo a um ínfimo sol.

Apreciámos. Talvez porque falasse de caminhos que são como os que levam ao presbitério. Ou porque um sol, mesmo ínfimo, brilhava no poema. Foi então que o primo Fuinha exclamou: — Indeplorável! Indeplorável quê? O que é um estado indeplorável ?
Há várias maneiras de gostar de um poema. Uma delas é simpatizar com a Szymborska e lê-la à luz dessa simpatia. A outra é gostar da Raposa e do modo como ela lê. Outra ainda é estar apaixonado, como o Mocho, que gosta de ouvir o Noiserv e achou que o poema lhe lembrava uma canção do Noiserv. E há o primo Fuinha, atento aos pormenores, o único que seria capaz de iniciar uma discussão sobre o estado indeplorável do besouro morto no caminho do campo.
Durou até à hora de deitar. Quase todos deram a sua opinião. A Raposa disse que traduções daquelas eram indecorosas, indefensáveis e a enchiam de ansiosidade. e houve quem investigasse e afirmasse que indeplorável se usava muito agora, pelos que gostam de ler no original e que era afinal a tradução literal do polaco nieoplakanyn.
Para mim a discussão acabara antes.
Vi o Mocho sentar-se na penumbra da sala. Pegar num caderno. E começar a escrever febrilmente. Não lhe distinguia a cara. Só as mãos, o caderno, o tronco. O Mocho tremia. De vez em quando um calafrio percorria-lhe o corpo e dissipava-se nas mãos. Ele parava de escrever até que o tremor o deixasse recomeçar. Aproximei-me, segurei-lhe as mãos geladas. Ele libertou-as para fechar o caderno - o Mocho escreve às escondidas.
— Em que estado estás, Mochinho — disse-lhe . —Vai-te deitar.
— É só do frio, pai — respondeu-me.

3 Comentários:

Blogger J. disse...

Tão belo.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012  
Blogger io disse...

O brurrinho Jammes. As saudades do burrinho Jammes. E esta coisa muito antiga de nos aconchegarmos no colo da polaca.

sábado, fevereiro 11, 2012  
Blogger io disse...

Ah e gosto desta coisa das crónicas doi. É que se não arde não se cura e se não doi não se sente.

sábado, fevereiro 11, 2012  

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