16 março 2012

Cem por Cento e Perfect


publicado no jornal i a 10 de março de 2012

Os candidatos são cinco. Por ordem de chamada: Cem por Cento, Perfect, São Paulo, Olhos Pretos e o filho do professor Barjona. Cada um traz consigo um orientador, ou tutor. Este tutor foi escolhido pelo interno ou nomeado pela direcção do internato médico, consoante as tradições do Hospital. Debateu com ele a estrutura do seu internato, aconselhou alguns estágios, escreveu cartas para serviços estrangeiros , aprovou o hospital onde decorreu o ano de periferia e o centro de saúde em que, de acordo com a crença, o contacto com os cuidados primários de saúde atenuaram o pecado hospitalista. Leu os relatórios anuais e esteve presente nas avaliações parciais. Estabeleceu com o candidato uma relação de amizade. Está pronto a defendê-lo contra a injustiça intrínseca do júri. No que pode usar várias táticas: aparente desprendimento, intimação terrorista, vitimização. Uma orientadora chorou em público, porque a sua tutorada fora prejudicada numa décima, na nota parcial. Outros comportam-se como os populares com uma câmara à frente e repetem argumentos com crescente indignação. Pode-se esperar tudo de um tutor, menos uma atitude racional. A menos que o seu protegido seja um ser superior e a sua prestação acima de qualquer crítica mal intencionada.
O presidente do júri conhece a legislação, distribui as recomendações do Colégio da Ordem, sabe preencher as complexas grelhas de avaliação, é capaz de escrever a Ata sem dar hipótese de reclamação, conhece o restaurante da zona onde se come bem e não leu os curricula. Além dele e dos orientadores, há dois vogais. Um nomeado pela Ordem e outro pelo Ministério da Saúde. Todos trazem malas de mão com trela, do modelo aprovado pelas low costs, com os curricula dos candidatos, um livro de texto para preparar as questões da prova teórica, um computador , ipad ou andróide consoante a região de proveniência, um exemplar já antigo dos Segredos da Especialidade, uma muda de roupa e um saco de toilette.
Os vogais representam grandes hospitais e diferentes escolas da especialidade. Conhecem os internos e os internos conhecem-nos a eles. Leram os curricula com atenção e os examinados, discretamente e sem dificuldade, leram a produção científica dos membros do Júri.
Leram também o currículo não médico. Por vezes procuraram desesperadamente nos comentários pessoais, na nota final ou na dedicatória, nas informações dos directores de Serviço os restos de afirmação pessoal, escassos sinais de vida própria que subsistem após 12 anos de exercício de conformidade com o modelo médico mais apreciado. Quando Cem por Cento escreveu na pg. II (Dedicatória) Ao Martim pelo Amor percebeu-se que ela não agradece o amor particular do Martim, ou seja lá o que for que o Martim lhe dedicou. Ela agradece ao Martim pelo Amor. Como se agradece aos pais pela Vida, a Deus pela Fé ou às motas de alta cilindrada pela ilusão de velocidade. O importante está nela. O Amor é um parque temático a que se vai, entre a Disneylandia e o resort da República Dominicana, o mestrado e a especialidade, o rasganço e o primeiro filho. O Martim é o propiciador desse estado de alma a que a interna acedeu, ou, teve o privilégio de experienciar.
O júri desfia as críticas esperadas. Se o relatório é pormenorizado há sempre um elemento do júri a declará-lo excessivo e a lembrar as três páginas com que os médicos da Eurolândia Central concorrem a um lugar num serviço. Mas um curriculum curto é depreciado e o interrogatório centra-se sobre pormenores organizativos dos Serviços “sem os quais a inteligibilidade do percurso do candidato se perde”.
O júri não é homogéneo: Um dos membros é tão frágil que tem de molhar os lábios entre duas perguntas e treme ao pensar que o candidato não está em condições de responder com profundidade. Outro interroga sobre os temas que leu nos últimos dias. Outro ainda fala para o presidente do Júri e para os assistentes. Cem por Cento entrou a matar. É pequena, tem um penteado que lembra a corte de Luís XIV e responde com pequenas frases certeiras. No início do interrogatório não impressiona. Mas a maneira rápida com que constrói os raciocínios, concentra nela a atenção do membro do júri que fala para a audiência. Perfect construiu a sua reputação através do entusiasmo. Tem um sorriso contagiante e mexe-se com a segurança inocente que as meninas ganham ao sair da infância. Quando a vemos, o cortex visual associativo dispara a ilusão dos milagres: e acreditamos que os vapores da doença serão vencidos. São Paulo tem uma cara incompleta, ainda mal definida e uma grande margem de progressão. Olhos Pretos é misteriosa. O filho do professor Barjona vem de gravata. São o futuro da Medicina. Estiveram a estudar durante os anos doirados da faculdade, enquanto os outros se divertiam nos convívios. Não viram os filmes que queriam, falharam os concertos, leram só apontamentos, resumos. Hoje podem trabalhar uma noite inteira e de manhã passar o serviço e continuar a trabalhar, a fazer consultas e a assistir a uma sessão clínica. Lêem e apresentam um artigo de um dia para o outro. Fazem resumos clínicos preciosos. Estão sempre disponíveis para observar mais um doente, substituir um colega, fazer horas extraordinárias mal pagas, planos de contingência, trabalho nas ONGs, investigação, campos de férias de doentes crónicos. São os magníficos médicos do século XXI, o nosso maior legado, contrariando todas as expectativas pessimistas, unindo a tecnologia à decisão clínica, a compaixão à dureza.
O presidente do júri parece sonhar. Olha para Perfect e tratando-a pelo nome próprio, pergunta-lhe:
- O que espera de nós? Ao elaborar este relatório, ao submeter-se a estas provas, o que esperava de nós? Agora mesmo, respondendo a estas questões, o que espera de nós?

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