02 junho 2012

Lucília dos bigodes


publicado no jornal i

Quando nasceu a mãe tossiu sangue e o médico, implacável, prescreveu a separação da criança. O pai organizou os cuidados à mãe e ele foi entregue, por motivos que nunca foram revelados, a um tio materno que devia ser considerado, na época, o membro da família mais dispo nível para se ocupar de um lactente. Este tio fora expulso do Exército e ganhava a vida a dar explicações aos filhos das famílias mais abastadas. Nas horas livres era também professor da Universidade Popular, que funcionava na parte velha da cidade. Vivia com uma governanta de nome Lucília, uma mulher austera, sempre vestida de negro, a quem nunca se viu outra pele além da que lhe sobrava ao buço. Durante muito tempo ele pensou que no mundo havia homens, como o tio, mulheres frágeis e de quarentena, como a mãe, e seres de trabalho, como a Lucília dos bigodes. Cresceu assim, na cidade, entregue aos cuidados avunculares e ao Pelargon da Lucília. O tio ensinou-lhe tudo o que sabia da vida: ginástica sueca, voar nos telhados como o Peter Pan, a Eneida contada às crianças, como o Homem se tornou gigante, o nó de gravata simples e o Windsor, geografia e botânica, a história das grandes batalhas através das principais entradas da grande Enciclopédia Larousse. Quando achou apropriado deu-lhe um Billiard para principiantes e um ano depois, deixou de fumar e entregou-lhe a sua colecção completa de cachimbos, incluindo um Bent e um Bulldog. Na infância dele não houve outras mulheres. Nem o riso, as roupas, os cremes, os perfumes, a cera, as lágrimas, o período. Quando a Lucília começou a envelhecer contrataram a Benedita, para ajudar. Tinha 15 anos e enlouqueceu os rapazes mais velhos da rua, que começaram a fazer jogos florais e acabaram com tentativas de assalto à casa, no horário escolar do tio, aproveitando a sesta da Lucília. Nesse ano teve varicela e ficou em casa duas eternidades, primeiro esperando pela queda das crostas e depois até recuperar as cores. Um sábado de manhã a Benedita foi ao mercado, comprou um coelho bebé e quando a Lucília foi visitar as amigas enfiou-se na cama dele com o roedor. Ficaram em silêncio, a olhar para o muro do quintal e para uma réstia de céu encoberto. O coelho, ou a Benedita, tremiam. Ou seria ele? Sentia-lhe os batimentos do coração que pareciam abafar os dele. Tecia-se em redor do seu corpo um novelo que lhe apertava o peito e só o deixava respirar um ar restrito, um pequeno volume corrente que não chegava para a voz, mesmo sussurrada. Qualquer coisa nele lhe dizia que se aproximava de uma revelação a que aspiravam os rapazes mais velhos, que cercavam a casa, batiam nas portas da traseira, soltavam gargalhadas nervosas. O coelho, ou a Benedita, ou ele, mexiam-se, inquietos. Mas ele não queria. Ainda não queria. Como nas aulas. Quando a doutora Helena fazia perguntas para o lugar e ele esperava que a ronda chegasse até à sua carteira, percorresse as filas de rapazes ignorantes que balbuciavam frases incoerentes ou simplesmente se calavam, até ser a vez dele, que julgava saber a matéria toda e a resposta certa. Tinha estado a retardar esse momento e a saborear a inclinação das coisas para a perfeição e então iniciava uma frase tão perfeita que se ia articulando ao mesmo tempo na sua cabeça e fora de si. Ouvia–a como uma música tocada em instrumento desconhecido, construindo-se enquanto ia sendo produzida e em que cada parte dependia da anterior e abria caminho à seguinte, simples e necessária, curta mas verdadeira, alimentada pelos olhares afirmativos da professora. Doce manhã de um sábado antigo, quando se trabalhava ao sábado e as manhãs duravam uma eternidade, na cama com a Benedita, pela primeira vez na cama com uma rapariga que se despira e se metera entre os lençóis cheirando aos legumes do mercado aquecendo-se nele e no coelho atónito. Ficaram assim, quietos, interditos, entre humanos e leporinos, até a Lucília entrar de surpresa e enviar a Benedita para “onde nunca devia ter saído”. A doçura das mulheres ficou para sempre associada às doenças benignas, aos pequenos animais, à evicção escolar, ao céu nublado e à punição sem recurso.

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