08 agosto 2012

A Morte do Leopardo: Sétima Parte




Don Fabrizio está sentado numa poltrona, na varanda do Hotel Trinacria de Palermo. É meio-dia de uma segunda-feira dos finais de Junho, e a luz de chumbo do mar da Sicília quase cega. Mas ele tem as pernas compridas envoltas numa manta. Agora é diferente. “O caso agora é diferente”, diz o narrador de O Leopardo. Já não é o lento e quase imperceptível derramamento da vida que nele se iniciou há tanto tempo. Está frágil e sem força como um recém-nascido e, entre desfalecimentos, desfilam à sua frente as imagens do que foi importante na sua vida. A descrição utiliza de forma soberba o discurso indirecto livre. Estamos no centro do cérebro de um homem que vai morrer, e a adequação da linguagem à corrente bruxuleante da sua consciência é tão maravilhosamente perfeita que nem por um instante nos afastamos dessa ampulheta onde se vertem os grãos finíssimos de areia. Estou a tentar ser fiel ao curso e ritmo desta agonia, usando as palavras de G. Tomasi di Lampedusa . O príncipe de Salina é o último dos Salina, porque os seus descendentes são burgueses vulgares, sem as recordações que agora se atropelam e definem uma linhagem que termina: os cães, o palácio de Donnafugata, a caça, a astronomia, a “beleza e o carácter” da filha Concetta, a satisfação “quando dava respostas cortantes a imbecis”, o toque sensual de alguns tecidos, o cheiro dos couros macerados, a beleza de algumas mulheres com quem se cruzara. O relato progride numa atmosfera de gases anestésicos, entrecortada pelos desmaios do príncipe, onde cada patamar é mais velado e anuncia o inevitável desfecho. A nossa percepção é a dos sentidos equivocados de Don Fabrizio, a sua consciência flutuante confunde-se com a nossa, e os sinais de morte acumulam-se, em contraste com uma realidade prosaica: o ruido quase festivo do Viático e o ar irritado do gerente suíço, incomodado por haver uma morte no hotel, o sorriso irónico de Tancredi tornado melancólico, a decrepitude do médico,” intelectual famélico”, que será o último a examiná-lo, lhe prescreve umas gotas de cânfora e sai, “ sem fazer barulho”. O perfume de Angelica nos seus braços durante “aquele baile” dos Pantaleone, entrevisto agora através de um sono invencível, ao qual não quer ceder. E o cheiro a bafio das pelúcias, a dificuldade para executar um pequeno movimento, o seu rosto por barbear no espelho ¬- “um Leopardo em péssima forma” . E uma interrogação que o vai trespassar: porque quer Deus que ninguém morra com o seu verdadeiro rosto. O homem que escreve nos Cadernos de Malte Laurids Brigge disse outra coisa: morremos com o rosto da nossa doença. A doença de Don Fabrizio é uma febre tricolor que varre a Europa. O príncipe de Salina vai também morrer com uma máscara forçada e por um momento hesita em chamar um barbeiro. Mas logo a seguir é vencido por outra evidência: é a regra do jogo, vão barbeá-lo depois. Uma multidão de detalhes alguns dos quais não parecem significativos: a música mecânica do realejo que toca lá em baixo na rua e que Tancredi manda parar, o fim iminente dos objectos amados, o fedor de prisão, recordações de urinas antigas e diversas. As mãos que já não apertam, as suas mãos. Achar-se na cama e já não na poltrona. Um assobio que ouve no quarto e é o do seu próprio estertor, a enumeração dos familiares que o cercam e a expressão de pavor que lhes reconhece e, de repente, “ esbelta e com um fato de viagem com ampla tournure e um rosto de estranha beleza, uma jovem rompe por entre o grupo, pede licença” e aproxima-se dele, debruça-se, ele vê-lhe a face, reconhece-a como a rapariga que olhou para ele na véspera, no comboio de regresso de Nápoles, e espanta-se: tão nova, não imaginava que fosse tão nova, e apesar disso interessa-se por ele. Rémy, o homem agonizante de As Invasões Bárbaras, filme quebequiano de Denys Arcand, disse que todas as noites da sua vida memorável adormecera com a imagem de uma mulher saindo das ondas e percebera a proximidade da morte pelo desaparecimento dessa visão hipnagógica. O príncipe de Salina foi levado por uma rapariga que entrevira nos espaços estelares. Nem a todos é dada a graça desta morte aristocrática. Não sabemos como morreu o homem do realejo, com que cara e visão, nem sequer Don Ciccio, seu companheiro de caça, ou o médico dos bairros miseráveis, ou o padre Pirrone. Quem virá buscar os intelectuais famélicos, a gente cega pelas promessas das Luzes, que acreditou que ao tempo dos chacais se seguiria um tempo das cerejas. O Leopardo, G. Tomasi di Lampedusa

1 Comentários:

Blogger João Alves disse...

O mesmo gozo aqui do que quando li o Leopardo. Excelente.

sexta-feira, agosto 10, 2012  

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