29 outubro 2012

As Três Graças e o Aconchego

Hoje o sol nasceu atrás da serra da Lousã, com todo o esplendor. Os maníacos da mudança de hora devem estar a preparar a costumada operação bianual. Interrogo-me como estas coisas acontecem. Que organismo em vias de extinção reúne para cumprir a directiva da mudança de hora do Outono. Com a queda do Estado-como-o-conhecemos virá o dia em que ninguém terá tal responsabilidade e continuaremos na hora de verão, ou na hora de inverno pelo verão fora, e ao fim de algum tempo cada um terá a sua hora solar aproximada e coincidiremos vagamente.Estou a ler uma biografia de Sartre e Beauvoir da autoria de Hazel Rowley. A meio já estava cansado com a inesgotável energia sexual que se desprende do par. Quantas horas tinham então os dias da França para aqueles iluminados poderem estudar, debater e produzir filosofia, dar aulas a adolescentes, passear pelos Alpes, viajar a Marrocos, cumprir o serviço militar, escrever e reescrever ensaios e romances, e ao mesmo tempo milhares de intermináveis cartas que destinavam às vítimas e à posteridade? E o tempo dedicado à sedução, de que Sartre se julgava mestre absoluto, bem como à sua preparação e execução final. Segundo Rowley, o desenlace, em contraste com os preparativos, era inesperadamente breve. A noite prolongava-se com preliminares infindáveis a que chamavam as “carícias”, e que por vezes, só por vezes, davam lugar às“ obscenidades”. A divisão do tempo que descrevo pode ser artificial e enganosa, reflectindo o estado incipiente do lirismo autoconfessional e do relato erótico , hoje tão comuns mas que na época davam os primeiros passos titubeantes. Um pouco como a provinciana de Para Roma com Amor, do último Woody Allen, as raparigas chegadas a Paris dormiam com Sartre por ele ser a celebridade que se adivinhava, apesar de ser vesgo, “cruelmente baixo”, de pele sebosa e marcada pelas pústulas e comédones do acne e as surpreendesse com a prática do coitus interruptus. Custa a crer como o tempo podia dar para toda esta actividade, aqui grosseiramente simplificada, entre o Hotel Mistral na Rue Cels, o Royal Bretagne em Montparnasse, lençóis e cobertores como pequenas bandeirinhas que iam cobrindo o mapa de Paris e, todos os anos transbordavam para tendas e celeiros. E sobretudo, como sobrava tempo para a mais preciosa das pedras do puzzle sentimental, aquela que o casal sublime dedicava a si próprio. Embora tencione escrever uma crónica sobre este tema, o ponto em que me encontro, antes do existencialismo, é pouco inspirador. Penso então em mulheres diferentes da Beauvoir que foram notáveis e são notáveis, nobres, desinteressadas do reconhecimento dos contemporâneos e da posteridade e que, todas à sua maneira, são perfeitas. Curiosamente têm nomes antiquados, como Simone, e um aparente desinteresse pelo sexo. Falo de Madalena, Adelaide e Leocádia. Madalena é linda, quando nos detemos sobre as particularidades do seu rosto, mas realizou-se numa procriação difícil da qual resultou um bebé frágil e exigente e o desemprego. Adelaide tem uma notável actividade social, que leva a cabo sem desfalecimentos. Leocádia entregou-se inteiramente à sua profissão, e veste o hábito civil das noviças, onde só a pele do rosto e das mãos é pública. Madalena, embebida em hormonas que facilitam o amor materno e a santificam para o seu homem e para todos os homens, está adiada enquanto mulher mas é nesse parênteses da sua vida sensual que o seu bebé progride. Adelaide é cerebral, previsível. O seu gabinete é um reduto de esperança para os desesperados, a sua voz suave, o seu discreto sotaque beirão, desarmam os excitados e agasalham os deserdados. Ela atemoriza os juízes negligentes, recorda-lhes prazos, diz-lhes que a ignomínia não passará despercebida. Personifica um princípio de justiça que permanece, enquanto à volta tudo desiste e se demite. Quando for tempo de restaurar um Estado de equidade, isso só será possível em torno de gente como ela. Adelaide atravessa o tempo dissoluto do fim do capitalismo especulador como as bibliotecas dos mosteiros medievais. É alta, de face clássica e escolhe roupa que esconde a sua feminilidade. Leocádia reúne à sua volta uma legião de admiradores, fascinados pelo seu exemplo. É abnegada. Embora seja crente, não se conforma com o destino ignóbil, com a adversidade da doença, a falta de meios, a desigualdade de tratamentos. Mulheres discretas como estas, reservadas, são a âncora dos meus dias . Por motivos difíceis de explicar, a melodia que delas escapa desenha um mundo feminino, pós beauvoiriano, onde me sinto seguro.

1 Comentários:

Blogger Carlos José Teixeira disse...

Eis como aparece o vosso feed no meu leitor, provavelmente porque o texto é copiado do word para o editor. Se for esse o caso, o melhor é copiar o texto para o separador "HTML".





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terça-feira, outubro 30, 2012  

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