17 junho 2014

Alfarelos, excerto de um poema





- A minha vida é extraordinária. Tenho pena de não vos poder contar tudo. - Eu! Eu! Eu! - repetiu a Teresinha, censurando o meu egoísmo. Mas temos de gostar de nós, não é? É o que a Teresinha costuma dizer. - Gostar de si própria é um pressuposto para a felicidade - é assim que ela diz. Ou ainda: - Quem gostará de nós, se não nos soubermos apreciar? Mas o lema da Teresinha não se aplica a toda a gente. Foi por isso que vim de comboio para os anos dela. Por isso e porque gosto de andar de comboio. Ao domingo há sempre um grupo de ferroviários a ocupar os lugares centrais da carruagem salão. São homens de meia idade, falam o tempo todo, virados uns para os outros. Uns gostam de falar e outros gostam de ouvir. Ao meu lado vai um homem estranho. Um coronel reformado, é o que penso. Por causa da filha, sobretudo. A filha de um coronel reformado, com o cabelo esticado e um casaco clássico que despe, com inesperada sensualidade, quando repara que, contra a minha vontade, a olho com insistência. Tem uma blusa justa que, ao rodar os ombros, lhe desenha um sutiã antiquado. Ou serei eu que sou antiquado em sutiãs, sobretudo quando se trata de filhas de coronéis. Uma das escritoras que leio, declarou há pouco que detesta a palavra blusa. Eu gosto. Tem duas vogais separadas por uma consoante, deslizando entre elas como seda sobre pele lisa. E um início que se solta como o gás do champagne e está na palavra blue e na palavra éblouissant, imitando o som que liberta ao ser despida. Já o mesmo não se pode dizer da palavra sutiã, o grafismo absurdo adoptado para a palavra francesa que democratizou o corpete ou porta-seios. Sem possibilidade de continuar a examinar a filha, tento perceber melhor o pai. Cabelo cortado à escovinha, calças justas, meia bota de montanha com cromados brilhantes. Penso neste homem a escolher calças e botas e como esse momento é revelador para um caixeiro arguto. O coronel tem uma fome devastadora e come uma maçã como só pensava que uma mulher o soubesse fazer. Uma mulher a recrear o pecado original, uma das milhares de Evas sempre prontas a exibir um excesso de carnes roliças, um rubor indisfarçável, histaminérgico. O homem tem óculos de sol e um MP3, pousados sobre a mesa. De vez em quando coloca um auricular, apenas um. Conserva-o alguns segundos, com uma mão suspensa perto da face, e depois retira-o como se queimasse ou a música o decepcionasse profundamente. Não sei o que ouve este homem, que tipo de música selecciona, nem porque esta lhe é, subitamente, tão repulsiva. Eu ouço Neil Hannon dos The Divine Comedy, cuja última gravação foi há 4 anos, e sou periodicamente atravessado pela questão recorrente que formulo assim: cheguei tarde às coisas interessantes da vida ou tenho ainda tempo? E serão estas? Encanto-me com a doce e genuína simplicidade de Have you ever been in love. Mas The Lost Art of Conversation ainda não tem a letra disponível no Lyrics.com e não posso impedir-me de pensar que é nessa canção que está, em código, mas fácil de decifrar, como sempre sucede com as canções da rádio, a verdade elementar das nossas comuns existências. Há momentos assim nas viagens e há momentos assim fora das viagens, aos domingos de manhã, quando quase todos dormem e a escassez de transeuntes nas ruas ou a abundância de lugares vagos no Alfa criam a ilusão de estarmos a viver um tempo suplementar, que ganhámos sem merecer, mas que, apesar disso é precioso e configura, de certa forma, a nossa vantagem. Paramos agora em Alfarelos. Escrevo uma mensagem cujo texto é : Alfarelos. E o que quero dizer, realmente, é Alfarelos, princípio de um poema como o Álvaro de Campos escreveu Excerto de duas Odes e rapidamente, em menos de meio século, se tornou natural para tantos leitores que isso significava Fim de duas Odes. Alfarelos, escrevo na mensagem para a Teresinha, esquecido de que ela não partilha as minhas referencias poéticas, a nouvelle chanson que ultimamente ouço obsessivamente, os escritores discretos em que me especializei e para os quais escrever Alfarelos é todo um programa, e acrescentar palavras a Alfarelos uma tarefa inglória e votada ao fracasso, que só pode ameaçar a perfeição desta mensagem lacónica que a Teresinha deve estar agora a receber Alfarelos sem perceber se viajo para ela ou para longe dela.

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1 Comentários:

Blogger Henrique Ponte da Luz disse...

Que saudades ó (Exmo) Luís.
Franjas de sute&has ,blues&has e Teres&nhas em Alfarel...os, muito bom.
Se sou capaz de nomear gratidão- hoje- seja ao Sol e a quem nos dá tudo a meio (à Lua, essa puta, inc.).
bn

sexta-feira, julho 11, 2014  

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