27 abril 2006

Ideia do Esquecimento



Ao Pedro Picoito, sem rancor

Em 1506 no largo de S. Domingos, no Rossio, em Lisboa, durante vários dias, houve em Lisboa um massacre horrível. Homens, mulheres e crianças foram mortos das várias e horríveis maneiras com que matar se pode, porque eram judeus. No blog A Rua da Judiaria, o Nuno Guerreiro, recuperou textos sobre o acontecimento e apelou a que, no dia 18 de Abril, quinhentos anos depois de tudo ter começado, se recordasse o sucedido.
A evocação de um massacre de Lisboa deu lugar a uma surpreendente reacção. Que era uma manifestação da incurável superioridade moral dos aderentes. Uma afloramento dessa insuportável ideologia a que se chama politicamente correcto. Uma treta sem sentido. Acender uma vela só depois de um curso intensivo de história. Como a história não é um tribunal, a evocação do massacre teria que ser acompanhada de sucessivas declarações de incorrecção política, onde ficasse bem claro que não se visava a Igreja Católica, a política do rei Manuel I, a culpabilização dos nossos supostos avós, a instrumentalização das perseguições para construir a tal história a preto e branco. E sobretudo, ah sobretudo, a legitimação do estado de Israel.
Só depois de trezentos posts em que, inequivocamente, deixássemos claro que não considerávamos que as crianças mortas no ventre das mulheres, queimadas em fogueiras, atravessadas pelos ferros, mereciam mais consideração que os fanáticos que as sacrificaram, é que uma vela íntima nos seria consentida. Desde que não falássemos na Inquisição, que veio para combater as heresias e nos dar a mesma dignidade do reino vizinho. Desde que não aludíssemos ao Holocausto, que não foi a morte silenciosa de milhões de seres humanos, mas uma indústria ao serviço do sionismo. Desde que acendêssemos, ao mesmo tempo, velas por todos os perseguidos conhecidos e desconhecidos, sobretudo os esquecidos pelos malvados do politicamente correcto, dos vinhateiros do Douro à Maria da Fonte.
A minha vela ardeu silenciosa como a minha evocação. Este debate é para mim completamente desinteressante. Nenhuma forma de intimidação me vai impedir de recordar a Rafle do Vel d’Hiv,ou, como Ilse Pollack fez no rasto de Joseph Roth e de Paul Nizan, ir a Czernowitz lembrar que o Cinema Municipal foi em tempos o Templo Grande dos judeus.
Todas as razões que Pedro Picoito aqui, nos comentários ao post de 21 de Abril teve a gentileza de alinhar, são exteriores à minha intenção. São de outra ordem de preocupações. Falam de outra coisa, independentemente da sua correcção, da razão ou da falta dela.
Foi Georgio Agamben quem disse que “mais essencial que a transmissão da memória é a transmissão do esquecimento, cuja acumulação anónima cai dia a dia sobre os (nossos) ombros, inapagável e sem refúgio. E se esta acumulação é de tal modo que nem o mais perfeito dos arquivos, teria capacidade para uma pequena parcela que fosse (…)essa é, no entanto, a única herança que cada homem infalivelmente recebe.”

Ilse Pollack, Mundos de Fronteira; Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, Livros Cotovia.

Comentários:

Sem rancor e sem muito rigor. Este post, há-de conceder-me, é uma caricatura do que eu escrevi. Risco que eu sabia inevitável e que só me surpreende não ter tido esta consequência mais cedo. Nunca coloquei as vítimas de 1506 no mesmo plano que os verdugos, nunca disse que era preciso compreendê-los, nunca afirmei que qualquer instituição estivesse acima da crítica, nunca critiquei a existência do Estado de Israel (embora critique a sua política de Talião), nunca defendi que se deixasse de comemorar o massacre, nunca afirmei que tem a mesma gravidade que as malfeitorias de Pombal, nunca pretendi branquear a Inquisição. Mas há uma frase deste post que resume tudo o que critico: aquela em que se adjectiva de "exteriores" às razões da comemoração as circunstâncias do acontecimento comemorado. Eu não acho que sejam exteriores. É isto o que nos separa. Infelizmente, é mais do que parece.
pedro picoito | 04.27.06 - 12:25 pm | #

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Exactamente Pedro, é isso que nos separa. É não perceber isso que nos separa.
Luis | Homepage | 04.27.06 - 12:32 pm | #

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Peço autorização ao Luís Januário e ao Pedro Picoito para publicar este texto e respectivos comentários no Cocanha.

Só o posso fazer amanhã porque hoje tenho um dia muito preenchido.


Creio que a questão também me toca, uma vez que foi à custa de deturpações idênticas às que estão a ser feitas ao Pedro, que eu tive uma diatribe menos usual nas vésperas desta homenagem.

Neste caso sinto-me na obrigação de defender publicamente o Pedro, porque o que aqui foi escrito na primeira página é uma total alteração de sentido das suas palavras.
zazie | Homepage | 04.27.06 - 12:40 pm | #

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De qualquer modo, obrigado pelo debate. Conheço poucos blogs (se algum) em que eu pudesse ter escrito a vintena de comentários que aqui escrevi sem ser insultado.
pedro picoito | 04.27.06 - 12:47 pm | #

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Não, mui cara Zazie, não gostaria que este debate saísse da caixa de comentários da Natureza do Mal. Primeiro porque estou muito bem acompanhado (não desfazendo), depois porque, apesar do nome, este blog mostrou ser um sítio bastante mais civilizado do que muita blogosfera, e finalmente porque não quero tornar-me um alvo tão óbvio para os profissionais de todas as boas intenções. Se o tema fosse outro, não teria qualquer problema. Tu conheces-me e sabes que não tenho medo de ser impopular, pelo contrário. Já me chamaram muita coisa e passa-me sempre ao lado. Mas ter o rótulo de anti-semita é diferente porque, como qualquer ocidental, a minha dívida para com os judeus é profundíssima. É o único insulto que me toca realmente por dentro. Não quero expor-me aos chacais que rondam por aí. Prefiro discutir massacres com gente que gosta de poesia. O que prova, diga-se de passagem, que Adorno não tinha razão ao sentenciar que depois de Auschwitz não se podia falar de poesia. Pode-se e deve-se. Sem a poesia (ou sem a história...), somos meros escravos da brutalidade dos factos. Como os judeus em Auschwitz ou no Rossio. Todos somos judeus errantes, só que alguns erram mais do que outros.
pedro picoito | 04.27.06 - 1:17 pm |

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Na mouche, Luís. Obrigado.
António | 04.27.06 - 3:23 pm | #

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"Never shall I forget that smoke. (...) Never shall I forget those flames which consumed my faith forever. Never shall I forget that nocturnal silence which deprived me, for all eternity, of the desire to live. Never shall I forget those moments which murdered my god and my soul and turned my dreams to dust. Never shall I forget these things, even if I am condemned to live as long as god himself. Never." foi ellie wiesel que escreveu isto -- li-o nas paredes de um dos museus do holocausto, o de washington, inaugurado em 1993. mas a verdade decretada é que se esquece. sempre. o ofício da memória, luís, é também esquecer.para poder ser possível viver.
f. | 04.27.06 - 4:33 pm |

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diria até que a memória é mais um mecanismo de esquecimento que de recordação
f. | 04.27.06 - 4:34 pm | #

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ok, totalmente respeitada a decisão e devo dizer que és mais sensato que eu.

obrigada ao Luís, da mesma forma. Fica aqui escondido e fica bem. Foi tudo civilizado. A minha ideia era apenas e estritamente de interesse histórico e formas como a história pode ser usada ou pode ser incómoda
zazie | 04.27.06 - 5:06 pm | #


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Aproveito para felicitar o Luís pela delicadeza ao dar voz ao "contraditório", que neste caso até me parece que tocava aspectos que o ultrapassam e cujos ecos mediáticos extravasam a dimensão de um blogue.

Deixo aqui apenas uma ideia acerca das preservações da memória.

Por um lado considero importante que não se percam nem fiquem fechadas em redomas, como se nada desse passado pudesse servir de "lição" para o presente.
Por outro, como dizia o Nietzsche, há que ter cuidado com o excesso de História- no sentido de se ficar preso a um passado que impede mudança e a libertação criadora.

Quanto ao resto, ao sentido de "superioridade genética e moral" do politicamente correcto- de quem se vê do lado certo da história, também passo.

Afinal de contas o meu lema anda mais próximo do "vive e deixa viver" que da necessidade de comprar guerras e ainda menos de "educar" quem quer que seja.
zazie | Homepage | 04.27.06 - 9:14 pm | #

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(...) De que é que falavam? Nem sempre percebi. O Pedro falava do rigor histórico, por um lado. O Luís desvalorizava a importância da correcção factual e apontava mais a relevância de se falar do que não é lembrado. O que retenho: o desabafo do Pedro para a Zazie dizendo que é aqui, num blogue de poesia que é possível falar da memória.
jpn | 04.28.06 - 12:49 am | #


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