11 abril 2007

Um ratinho


Damien Hirst, A thousand years

Ontem à noite passava por um beco junto à ruina de um mosteiro. A ruína é envolvida agora por uma cerca da construtora cujo nome não escreverei, que este blog não é da construção civil. A luz é crua à hora em que passo. Não há ninguém. Atrás da cerca empilham-se seringas, garrafas e outro lixo vulgar. No chão, de pedras antigas, estava um ratinho morto. Quase não daria conta dele de tal modo se funde contra o calcário que é da cor parda do seu pelo liso. Mas foi pisado e as vísceras sobressaem, rosadas. Iguais às minhas, ainda cobertas. Não sou mais do que o ratinho morto, ali onde o Ippar ou o seu sucedâneo neo liberal, conservou uma parede espectral. Não sou mais, vivo, que o ratinho morto. Não tenho mais valor que o ratinho. Nem percebo em que escala se medem estas coisas de que só falo por ter visto, no domingo à noite o José Manuel Pureza, um crente e um humanista, a falar, com a voz profunda com que é suposto um crente e um humanista falarem, do sentido último das coisas, como se Caeiro ou Dawkins não tivessem existido. Mesmo isto que escrevo não tem obviamente qualquer valor, nem eu destruiria as crenças benignas de alguém, sobretudo de Carlos Fiolhais, que leu John Gray numa viagem de avião, suponho que de curta duração.

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