20 abril 2007

Não देवे सबेर, não देवे ver


Varlam Chalamov


John Gray, cujo livro Straw Dogs abri numa viagem de avião, em casa à noite, e em outras pausas do trabalho, ensinou-me, em todos os instantes em que o li, coisas terríveis.
Não digo verdades terríveis porque não sei o que sejam verdades, nem é a busca da verdade o que me faz viver. Ângulos diferentes de observação, um outro pensamento, uma reflexão menos habitual. Gosto de cada página do livro, cada página me dá a exaltação e a gravitas da partilha de qualquer coisa assombrosa, que não é o conhecimento mas é uma aproximação ao conhecimento.
Não vou falar da tese principal do livro, a de que o humanismo é o sucessor laico do cristianismo, um reduto do antropocentrismo. Os meus amigos não entendem, julgam que estou a fazer a propaganda do Encoberto, de Israel, do Irracional. Nem eu tenho saúde para isto, nem os tempos correm a favor. Vou só falar de temas laterais.
Com John Gray conheci o escritor Goronwy Rees, que não encontrava em si qualquer processo unificador a que se pudesse com rigor chamar um “Eu”. E Varlam Chalamov, um autor do gulag, que passou 17 anos numa ilha de morte chamada Kolima, “um campo árctico onde morria por ano um terço dos prisioneiros”, e que escreveu:
“Há muitas coisas que um homem não deve saber, não deve ver e, se as chegar a ver, melhor será que morra.”


John Gray, Sobre Humanos e Outros Animais, Lua de Papel, 2007
Varlam Chalamov, autor de Histórias de Kolima, sobre o Gulag soviético
Goronwy Rees, escritor irlandês a quem a filha chamou o senhor Ninguém, espião russo.

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11 abril 2007

Um ratinho


Damien Hirst, A thousand years

Ontem à noite passava por um beco junto à ruina de um mosteiro. A ruína é envolvida agora por uma cerca da construtora cujo nome não escreverei, que este blog não é da construção civil. A luz é crua à hora em que passo. Não há ninguém. Atrás da cerca empilham-se seringas, garrafas e outro lixo vulgar. No chão, de pedras antigas, estava um ratinho morto. Quase não daria conta dele de tal modo se funde contra o calcário que é da cor parda do seu pelo liso. Mas foi pisado e as vísceras sobressaem, rosadas. Iguais às minhas, ainda cobertas. Não sou mais do que o ratinho morto, ali onde o Ippar ou o seu sucedâneo neo liberal, conservou uma parede espectral. Não sou mais, vivo, que o ratinho morto. Não tenho mais valor que o ratinho. Nem percebo em que escala se medem estas coisas de que só falo por ter visto, no domingo à noite o José Manuel Pureza, um crente e um humanista, a falar, com a voz profunda com que é suposto um crente e um humanista falarem, do sentido último das coisas, como se Caeiro ou Dawkins não tivessem existido. Mesmo isto que escrevo não tem obviamente qualquer valor, nem eu destruiria as crenças benignas de alguém, sobretudo de Carlos Fiolhais, que leu John Gray numa viagem de avião, suponho que de curta duração.

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