09 junho 2007

A ideia do amor


Sophie Calle, quarto de Sophie Calle


O amor não existe. Só existe a ideia do amor. A ideia do amor é a flor na lapela da fornicação. A vontade de copular serve a necessidade de transmissão dos genes. Tudo isto é repugnante para as jovens mentes humanistas e antropocêntricas, que têm necessidade de vestir o cio com Chloé ou Santo Agostinho. "O céu estrelado por cima de mim" e outro céu estrelado dentro de mim. Há quem não consiga aceitar a evidência disto. Eu durmo bem. Se tem de ser no sítio do teu cheiro, tanto melhor. Também durmo bem no chão. Só não consegui dormir no solstício de Verão, numa serra da qual esqueci o nome, onde os pólens asfixiavam e o dia se recusava a deixar espaço à celebração da noite. A celebração da noite do solstício de Verão é anterior a Shakespeare e a Woody Allen. Como se vê pela agitação dos humanos. Nas aldeias dos vales só os cães parecem preocupados. Mas não vou deixar que a memória do Zêzere me afaste deste comentário. Há pessoas condenadas a dormir no chão da sala, e não é só em Junho. Quase sempre mulheres. O chão das salas está marcado pelas sombras das mulheres atormentadas. Ao lado, os homens dormem pesadamente numa cama que não é deles. Nas noites de Verão, nas cidades do Sul, podemos sentir o rancor das mulheres contra o sono dos homens, e atrás dele, irritante como o cheiro do jasmim, uma ideia de amor sem pensamentos.

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