17 agosto 2010

Pedalam curvados


Charlotte Perriand




Pedalam nos Alpes
curvados no volante - estes
agora
descem
para o vale
depois de passado o Julierpass.

Ele vai à frente
de cabelo branco.
Ela apanhou-o
debaixo da trança do capacete
e de uma touca
escarlate
que desce à nuca.
Parece uma marciana
em missão de paz.

Tão frágeis ao lado dos cumes
do colo de Julier.

Inclinam o corpo com graciosidade
pedalam depois de desfeita a curva
entre os dois a distância vai esticando
e depois
reduz-se
tão perto que talvez nas subidas
ela tome a dianteira.

Estão equipados a rigor
com jerseis que desenham as ancas
os ombros
e como uma segunda pele deixam
o corpo seco
ao transpirar.
Abaixo das ¾ knickers
as pernas são
-como se diz-
torneadas.
De vez em quando ele volta ligeiramente a cabeça
para a ver ( como ela é
de relance
polarisada pelas oakley path radar).

É assim que fazem os que se amam.

Pedalam em uníssono
em doces
mas arrebatados orgasmos
simultâneos como um par verdadeiro.
Não existe entendimento maior do que este:
no cenário dos Alpes
dois corpos cuidadosamente aparelhados
que envelheceram juntos mas conservam
o brilho e a elasticidade do
neopreno
a sofisticação do tungsténio
e do vermelho absoluto
nos lábios dela.

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16 junho 2007

Lerda Bloga




Rititi, Uma mulher frondosa

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09 junho 2007

A ideia do amor


Sophie Calle, quarto de Sophie Calle


O amor não existe. Só existe a ideia do amor. A ideia do amor é a flor na lapela da fornicação. A vontade de copular serve a necessidade de transmissão dos genes. Tudo isto é repugnante para as jovens mentes humanistas e antropocêntricas, que têm necessidade de vestir o cio com Chloé ou Santo Agostinho. "O céu estrelado por cima de mim" e outro céu estrelado dentro de mim. Há quem não consiga aceitar a evidência disto. Eu durmo bem. Se tem de ser no sítio do teu cheiro, tanto melhor. Também durmo bem no chão. Só não consegui dormir no solstício de Verão, numa serra da qual esqueci o nome, onde os pólens asfixiavam e o dia se recusava a deixar espaço à celebração da noite. A celebração da noite do solstício de Verão é anterior a Shakespeare e a Woody Allen. Como se vê pela agitação dos humanos. Nas aldeias dos vales só os cães parecem preocupados. Mas não vou deixar que a memória do Zêzere me afaste deste comentário. Há pessoas condenadas a dormir no chão da sala, e não é só em Junho. Quase sempre mulheres. O chão das salas está marcado pelas sombras das mulheres atormentadas. Ao lado, os homens dormem pesadamente numa cama que não é deles. Nas noites de Verão, nas cidades do Sul, podemos sentir o rancor das mulheres contra o sono dos homens, e atrás dele, irritante como o cheiro do jasmim, uma ideia de amor sem pensamentos.

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