23 julho 2007

Notas de Leitura (epílogo)

Foi assim, o livro de Zita Seabra pode ser lido como uma tragédia. No prólogo, Mariana, a heroína, a herdeira das caves Barrocão, adere ao partido da Revolução. A hamartia é o 25 de Novembro e o Êxodo, a reunião do Comité Central em que é expulsa. A Revolução é a posse do Príncipe, o Camarada, o homem que não dorme, o que há-de vir e veio, dos céus para cima de um carro de combate sublevado. Enquanto o Principe não vem, a pequena heroína sofre alguns príncipes intermédios. Quando ele vier reconhecê-la-á. Ela não pertence à casta dos escolhidos, ao povo eleito. Mas é uma filha adoptiva. A filha adoptiva. Ele veio e reconheceu-a. Ele veio e escolheu-a. Mas perdeu. Recuou no dia em que devia avançar. Ela não queria uma vitória de Pirro, uma Jerusalém celeste. Adoece. Ninguém, nos dois mundos em que se move, diagnostica a sua grave doença. Quando volta, o Príncipe está velho, sem poder, isolado. O Êxodo é cantado por um Comité Central que a expulsa, unânime, e se ri numa brutal gargalhada final. À saída, um taxista (o povo possível) reconhece-a. Está perdoada. É levada para o lugar seguro da infância, onde tudo pode recomeçar mas de outra maneira.


(ver também Rui Bebiano em A Terceira Noite. Crítica a sério e indicação de blogs que aparentemente leram este livro.)

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