25 julho 2007

Notas de leitura 9

Primeiro apaixonou-se pelo Comité Local, depois pelo Comité Central, depois pelo Secretário Geral. Quando eles estavam velhos e pobres ela voltou para o primeiro namorado, que não entrava na história. Foi então que a sogra disse:
- Ela nunca me enganou.



(Resumo de Foi assim, na revista Flaish)

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24 julho 2007

Post nulo

Escrevi, esta noite, um post enorme sobre o livro de Zita Seabra. Depois dei uma volta pela blogosfera e descobri que não interessava a ninguém. Nem a mim.

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23 julho 2007

Notas de Leitura (epílogo)

Foi assim, o livro de Zita Seabra pode ser lido como uma tragédia. No prólogo, Mariana, a heroína, a herdeira das caves Barrocão, adere ao partido da Revolução. A hamartia é o 25 de Novembro e o Êxodo, a reunião do Comité Central em que é expulsa. A Revolução é a posse do Príncipe, o Camarada, o homem que não dorme, o que há-de vir e veio, dos céus para cima de um carro de combate sublevado. Enquanto o Principe não vem, a pequena heroína sofre alguns príncipes intermédios. Quando ele vier reconhecê-la-á. Ela não pertence à casta dos escolhidos, ao povo eleito. Mas é uma filha adoptiva. A filha adoptiva. Ele veio e reconheceu-a. Ele veio e escolheu-a. Mas perdeu. Recuou no dia em que devia avançar. Ela não queria uma vitória de Pirro, uma Jerusalém celeste. Adoece. Ninguém, nos dois mundos em que se move, diagnostica a sua grave doença. Quando volta, o Príncipe está velho, sem poder, isolado. O Êxodo é cantado por um Comité Central que a expulsa, unânime, e se ri numa brutal gargalhada final. À saída, um taxista (o povo possível) reconhece-a. Está perdoada. É levada para o lugar seguro da infância, onde tudo pode recomeçar mas de outra maneira.


(ver também Rui Bebiano em A Terceira Noite. Crítica a sério e indicação de blogs que aparentemente leram este livro.)

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Notas de Leitura 8

O livro é de interesse desigual. Quatro partes. A adesão ao PC e a vida na clandestinidade, escrita em tom menor, interessante. A fase final da clandestinidade, quando Zita tem finalmente funções dirigentes na Lisboa dos anos que precedem o 25 de Abril e se prolonga até ao 25 de Novembro, cheias de arrogância e euforia. Uma fase confusa que precede a dissidência. A dissidência e o processo de expulsão. Um epílogo dispensável. As primeiras partes poderiam ter sido escritas por qualquer dirigente do PC. As últimas também.
Repetições, um trabalho descuidado de revisão, uma preocupação excessiva em contextualizar o seu percurso, o recurso cansativo ao jargão comunista, um ou outro ajuste de contas pouco claro, algumas passagens que se percebe constituirem sobretudo uma justificação, não retiram o mérito do livro. Um depoimento convincente de alguém que viveu uma experiência próxima do fanatismo religioso e foi capaz de preservar saúde mental para sobreviver e continuar uma existência normal.

Foi assim, ed Aletheia, Zita Seabra, 2007 (443 pp, 18 €)

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22 julho 2007

Notas de Leitura 7

O PC continua muito bom. Passaram sete anos. De Maio de 1967 até Abril de 1974. Zita Seabra tem agora 24 anos. O que ela conta é verosímil: O isolamento e a dureza da clandestinidade comunista; as exigências conspirativas; a submissão às regras do "centralismo democrático" , numa primeira fase, e depois a sua utilização implacável, enquanto dirigente. O relato é verosímil, directo, em muitos momentos quase ingénuo. Se não Foi assim, podia ter sido mais ou menos assim. (pg 220)

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Notas de Leitura 6

O PC parece ser muito bom até a Zita Seabra ser recrutada. (pg 80)

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Notas de Leitura 5

Nos agradecimentos inclui-se um revisor, o "melhor revisor do mundo". O" melhor revisor do mundo" deixou passar frases como : "No Verão parti para França com os meus pais para França". (pg 53)
Agradecimentos ainda a João Carlos Espada, a Vasco Pulido Valente "pelos infindáveis jantares no Gambrinus", e a monsenhor Arnaldo Pinto Cardoso que insistiu muito para ela escrever o livro.
No ponto em que me encontro (pg 80) uma coisa é certa. Vasco Pulido Valente não escreveu este livro.

(continua)

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Notas de Leitura 4

A capa é de um grafismo discutível. O estilo Foi assim. Uma Zita de punho erguido, tendo como fundo o símbolo da unidade dos trabalhadores e camponeses e um Avante desbotado. As letras apagadas pelo tempo. Tudo óbvio.

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Notas de Leitura 3

O livro chama-se Foi assim.
Admito que se trate de ironia (até à pg 80 não vislumbro ironia). Parece que ela acha mesmo que foi assim. Que foi assim, o mundo que ela viu. Que é assim, o mundo que ela vê.

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Notas de Leitura 2

Não partilho dos que pensam que a coerência é um valor estimável. Também não gosto dos arrependidos. Os arrependidos só existem nas sociedades que impôem valores oficiais. Acho que as pessoas inteligentes podem mudar de opinião. O que fazemos a todo o instante, mesmo quando recusamos o proselitismo, é tentar convencer os outros. O sufrágio universal e a democracia só fazem algum sentido se se acreditar na capacidade que as pessoas têm de aceitar os argumentos dos outros como razoáveis e mudar as suas opiniões. Um salazarista que "assim se manteve até ao fim", um comunista que "não deixou de o ser", um que se manteve adepto da frenologia, do criacionismo ou da geração espontânea, apesar das evidências e sobretudo ignorando as evidências, não me despertam admiração.
Como disse uma vez Pacheco Pereira, acho corajoso que Zita Seabra, que construiu uma imagem pública no PCP, tenha aderido a outro partido e aí lute pelas suas novas ideias. É por elas que deve ser apreciada e não pela coerência autobiográfica. Os dissidentes comunistas não devem ser apreciados pelo silêncio, nem estar sujeitos a nenhuma regra de exclusão da vida pública.

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Notas de Leitura 1

Comecei a ler o livro de Zita Seabra.
Acho bom ela ter escrito um livro de memórias. As memórias devem ser escritas enquanto existem. O PCP é o único partido com história, o mais opaco dos partidos, aquele em que o vidro das paredes só deixa ver sombras e que sombras sejam vistas. A publicação de memórias destas é importante para o conhecimento da nossa história recente. Muitos dos intervenientes estão vivos e podem dizer a sua versão dos acontecimentos. A história é isto. Oxalá os que Zita refere e sentem que a realidade não Foi exactamente Assim possam encontrar o espaço para as suas versões.

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