30 setembro 2007

Casa de Caetana




A Rosa diz que há sítios com imensas possibilidades narrativas, uma espécie de campus dramaticus onde mesmo actores medíocres atingem uma dimensão trágica. O ramal da Lousã e a CP em geral, diz a Rosa, são desses lugares, onde até as sombras das mulheres têm história. A casa da Caetana, à noite, vista do largo da aldeia, tem as salas iluminadas e as janelas abertas como olhos espantados entre os abetos da Noruega, as pereiras e o castanheiro. O portão, por baixo do belvedere, tem um cadeado falso. Todas as protecções são falsas, na casa da Caetana. Na noite em que abri o cadeado e entrei no jardim, pisei as ervilhas de cheiro e entrei por uma janela de guilhotina. Havia luz em todas as salas e do andar de cima vinha uma música que depois, nos autos, soube ser o lamento de Jeremias, de Niccola Amedeo. Subi as escadas até ao primeiro andar, e depois até ao sótão. Fiquei num lance da escada, à espera de vozes. Depois calou-se tudo, apagaram-se as luzes, desci até à porta do sótão, tentando respirar sem ruído. Do outro lado ouvi a respiração apressada de Caetana. Eu fazia pequenos movimentos, mas a cada um rangiam os degraus, os joelhos e os tornozelos, ecoava apressada cada sístole. Do lado de lá alguém fazia exactamente os mesmos movimentos e segurava o ar ao mesmo ritmo. Um de nós ia abrir a porta e ficar em desvantagem. Ser visto antes de ver. Ouvir o grito antes de gritar.

foto deAlison Brady

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