17 janeiro 2010

Haiti. Catástrofe

Várias catástrofes se abateram sobre a República dos escravos pretos: o terramoto, a ajuda internacional e os jornalistas. Um neurocirurgião americano corre à frente de uma câmara, à procura de uma vítima. Sempre em grande plano realiza um simulacro de exame médico, debita um diagnóstico e pede à enfermeira:- Antibióticos e uma gaze. Uma equipa de socorro brasileira, ao serviço da Globo, detecta uma mulher soterrada. Os jornalistas quase bloqueiam o acesso à vítima. Uma delas estende para o buraco, no solo, um microfone. Um médico, neurocirurgião, e uma jornalista. Aqui está a aliança soturna com que se entretém o mundo, a ajuda fraterna, a lágrima no sofá. A República dos escravos pretos, que cortou todas as árvores, onde julgaram ter nascido a doença ominosa do século XX, teve agora o golpe de misericórdia, pela mão das forças do subsolo ou de um deus que já ninguém reclama. Não há, nas redacções das televisões nem nas Associações médicas, quem recorde que não exibir o sofrimento alheio é o princípio de toda a compaixão.

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30 setembro 2007

Casa de Caetana




A Rosa diz que há sítios com imensas possibilidades narrativas, uma espécie de campus dramaticus onde mesmo actores medíocres atingem uma dimensão trágica. O ramal da Lousã e a CP em geral, diz a Rosa, são desses lugares, onde até as sombras das mulheres têm história. A casa da Caetana, à noite, vista do largo da aldeia, tem as salas iluminadas e as janelas abertas como olhos espantados entre os abetos da Noruega, as pereiras e o castanheiro. O portão, por baixo do belvedere, tem um cadeado falso. Todas as protecções são falsas, na casa da Caetana. Na noite em que abri o cadeado e entrei no jardim, pisei as ervilhas de cheiro e entrei por uma janela de guilhotina. Havia luz em todas as salas e do andar de cima vinha uma música que depois, nos autos, soube ser o lamento de Jeremias, de Niccola Amedeo. Subi as escadas até ao primeiro andar, e depois até ao sótão. Fiquei num lance da escada, à espera de vozes. Depois calou-se tudo, apagaram-se as luzes, desci até à porta do sótão, tentando respirar sem ruído. Do outro lado ouvi a respiração apressada de Caetana. Eu fazia pequenos movimentos, mas a cada um rangiam os degraus, os joelhos e os tornozelos, ecoava apressada cada sístole. Do lado de lá alguém fazia exactamente os mesmos movimentos e segurava o ar ao mesmo ritmo. Um de nós ia abrir a porta e ficar em desvantagem. Ser visto antes de ver. Ouvir o grito antes de gritar.

foto deAlison Brady

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