04 junho 2008

À noite, a musa



À noite leio os grandes livros
e interrompo a minha musa
que tenta,
sem conseguir,
avançar na Vida de Shakespeare,
de cuja vida se sabe tão pouco,
na versão do Bill Bryson
que é um autor a quem se afeiçoou.
Feita dicionário, a minha musa traduz-me
uma palavra estranha, mollify,
uma expressão idiomática, uma referência cultural.
Agora Coetzee, às vezes livros insuportáveis
que exasperam qualquer musa,
porque as musas,
da política, acham o mesmo que da poluição:
devemos afastar-nos dela, respirar outros ares.
Da política e da biologia, sobretudo
da biologia política, da biologia cultural,
daquilo a que o velho Darwin chamou:
as nossas mais baixas origens.
É uma questão de educação, pensa a minha musa.
À mesa da vida, não devemos
mostrar as nossas más maneiras, mesmo
se elas corresponderem a uma
estratégia evolutiva estável, diz
a minha musa com esforço,
e com um ênfase
que quer dizer:
nunca mais ouvirão de mim palavras destas.

À noite leio os grandes livros.
- Sublinha.
Devias escrever sobre isso.
(É o que diz a musa).
Às vezes a musa distrai-se.
Dos meus grandes livros.
Não me tira as dúvidas.
As vezes vai-se embora
Deixa-me sozinho.
And all her gracious parts
stuff out her vacant garments
with her forms.

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