28 junho 2008

Homem Lento


Karel Funk


Viu há dias um filme sobre os lobos de Yellowstone. No Vale dos Lobos, um vírus atacou e exterminou quase todos os jovens. Uma alcateia do grupo conhecido por Druidas abandonou o Vale. Um deles era o 302, Casanova, um lobo preto. Ao longo de alguns anos ele vagueou pelas zonas altas de Yellowstone, com o que restava da alcateia. Nasceram e morreram crias, vítimas do vírus e de um grupo de forasteiros que , sem que que se percebesse quem o orientava, atacou os adultos Druidas enquanto os jovens morriam, famintos, nas cavernas geladas. Na primavera do ano de 2006, o 302 tinha ao seu lado alguns jovens e os adultos sobreviventes. Com eles reconstituiu a alcateia e rumou ao Vale dos Lobos, ocupado pelos coiotes, tão numerosos que se mordiam entre eles até à morte.
De sua casa, há uns anos que vê o grande sucesso dos milhafres do Choupal. Um deles, o 26, caça nos terrenos do Pólo 2, e aventura-se até à Solum, em cujos jardins revoltos prosperam os ratos da cidade e pombos tão gordos que não passam do chão.
Quando pára de escrever vê o voo elegante do 26 e ressoam lhe na cabeça as palavras que Coetzee pôs na boca do Homem lento : Não tenho estado à altura da situação, não me tenho portado bem.
É o 933 456. Ou o 18 311. Ou o 534. Depende dos registos. Ultimamente é o NIF ou o NIB. Não reconstituirá nenhuma alcateia.
É como o homem lento, mais do tipo crepuscular.

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04 junho 2008

À noite, a musa



À noite leio os grandes livros
e interrompo a minha musa
que tenta,
sem conseguir,
avançar na Vida de Shakespeare,
de cuja vida se sabe tão pouco,
na versão do Bill Bryson
que é um autor a quem se afeiçoou.
Feita dicionário, a minha musa traduz-me
uma palavra estranha, mollify,
uma expressão idiomática, uma referência cultural.
Agora Coetzee, às vezes livros insuportáveis
que exasperam qualquer musa,
porque as musas,
da política, acham o mesmo que da poluição:
devemos afastar-nos dela, respirar outros ares.
Da política e da biologia, sobretudo
da biologia política, da biologia cultural,
daquilo a que o velho Darwin chamou:
as nossas mais baixas origens.
É uma questão de educação, pensa a minha musa.
À mesa da vida, não devemos
mostrar as nossas más maneiras, mesmo
se elas corresponderem a uma
estratégia evolutiva estável, diz
a minha musa com esforço,
e com um ênfase
que quer dizer:
nunca mais ouvirão de mim palavras destas.

À noite leio os grandes livros.
- Sublinha.
Devias escrever sobre isso.
(É o que diz a musa).
Às vezes a musa distrai-se.
Dos meus grandes livros.
Não me tira as dúvidas.
As vezes vai-se embora
Deixa-me sozinho.
And all her gracious parts
stuff out her vacant garments
with her forms.

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