07 dezembro 2008

Quatro noites de Osakra com Anna



Um homem caminha na nossa direcção, passa por nós e, acompanhando a sua marcha penosa vemos que ele persegue uma mulher. Depois, como foi notado, passamos algum tempo sem perceber quem é, e o que faz este homem, tratado pelo nome de família, Osakra, e quase sempre chamado por uma voz rude e ameaçadora, a de um polícia, um superior, a avó agonizante.
A mulher que ele espia vive sozinha. Ele olha-a, do seu posto de voyeur. Algumas vezes levanta-se, percorre com a sua marcha cerebelosa o caminho escorregadio até à janela do quarto térreo da enfermeira, e depois de investidas cada vez mais ousadas, acaba na violação do domicílio da vítima.
No julgamento, quer depôr. E explica, na sua voz grosseira, primeiro um murmúrio confuso e depois uma palavra clara, o motivo da sua acção.
A aldeia do leste europeu onde isto se passa está num tempo estranho, uma Idade Média pós-comunista, com escassas tecnologias modernas inseridas em ruas lamacentas, casas geladas, a torre da igreja, um crematório, um rio de margens brancas onde, antes de soar uma sirene, passa uma vaca morta. Dessa aldeia conheceremos o espaço de deambulação de Léon Osakra, um homem de mãos moldadas pela lama das folhas, as gretas do frio, a pega do machado, cinzeladas no fogo onde apaga as marcas das vidas que se acabam. O amor de Osakra por Anna é o sentimento bruto que assolava os machos da espécie, antes da escrita, da literatura, do cinema, da psicologia e da lei. No momento da revelação Anna não sabe o que fazer a um amor assim. E o filme suspende-se num muro branco, de tijolos caiados, que estranhamente parece ter estado sempre ali.

Quatro Noites com Anna
Jerzy Skolimowski

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