07 dezembro 2008

Quatro noites de Osakra com Anna



Um homem caminha na nossa direcção, passa por nós e, acompanhando a sua marcha penosa vemos que ele persegue uma mulher. Depois, como foi notado, passamos algum tempo sem perceber quem é, e o que faz este homem, tratado pelo nome de família, Osakra, e quase sempre chamado por uma voz rude e ameaçadora, a de um polícia, um superior, a avó agonizante.
A mulher que ele espia vive sozinha. Ele olha-a, do seu posto de voyeur. Algumas vezes levanta-se, percorre com a sua marcha cerebelosa o caminho escorregadio até à janela do quarto térreo da enfermeira, e depois de investidas cada vez mais ousadas, acaba na violação do domicílio da vítima.
No julgamento, quer depôr. E explica, na sua voz grosseira, primeiro um murmúrio confuso e depois uma palavra clara, o motivo da sua acção.
A aldeia do leste europeu onde isto se passa está num tempo estranho, uma Idade Média pós-comunista, com escassas tecnologias modernas inseridas em ruas lamacentas, casas geladas, a torre da igreja, um crematório, um rio de margens brancas onde, antes de soar uma sirene, passa uma vaca morta. Dessa aldeia conheceremos o espaço de deambulação de Léon Osakra, um homem de mãos moldadas pela lama das folhas, as gretas do frio, a pega do machado, cinzeladas no fogo onde apaga as marcas das vidas que se acabam. O amor de Osakra por Anna é o sentimento bruto que assolava os machos da espécie, antes da escrita, da literatura, do cinema, da psicologia e da lei. No momento da revelação Anna não sabe o que fazer a um amor assim. E o filme suspende-se num muro branco, de tijolos caiados, que estranhamente parece ter estado sempre ali.

Quatro Noites com Anna
Jerzy Skolimowski

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17 março 2008

Pedro Mexia na Cinemateca



Pedro Mexia é o novo sub director da Cinemateca. A nomeação é do novo Ministro da Cultura e a sugestão, segundo o Público, partiu de João Bénard da Costa. A este jornal, João Bénard declarou que lembrou-se de Pedro Mexia para subdirector por ele «ser de uma geração mais nova, o que é muito importante». A observação é finíssima e mostra que era justa a petição que há três anos assegurou a continuidade de Bénard da Costa na direcção do cargo, apesar de ter ultrapassado o limite de idade.
Que Pedro Mexia tenha as maiores felicidades, que faça um bom trabalho, nos dê bom filmes e que este cargo público o não envelheça.

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01 novembro 2007

O escafandro dos críticos das estrelinhas



Continua o terrorismo dos críticos das estrelinhas. Vasco Câmara deu a bola vermelha a este filme de Schnabel, adaptação do livro de um sobrevivente de síndrome de lock in. As sala estão vazias, resultado da política catastrófica dos distribuidores e da pedagogia dos críticos que não gostam de cinema. Este Câmara não trabalha e é masoquista. Dos filmes em exibição só viu dois, que executa sumariamente. Eu gostei de tudo. Da interpretação, da escolha de actores, da banda sonora, da verosimilhança. O preconceito intelectual de Câmara e dos maîtres a penser a quem o Público entregou a crítica cinematográfica atingiu o paroxismo. Não liguem e vão ver. Câmara e colegas sofrem de uma variante gravíssima do síndrome de lock in. Enrolam a língua mas alguém lhes cozeu as pálpebras.

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A Não Perder, absolutamente



La Niña Santa de Lucrecia Martel, na Um à 01:55H

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02 setembro 2007

Dois touros na colina

No cimo de uma colina o touro velho e o touro jovem avistam umas vacas que pastam felizes. E diz o touro jovem ao velho: Porque não descemos a galope e nos esfregamos com uma dessas vacas? E o velho responde: Porque não descemos a andar e nos esfregamos com todas?


(Robert Duvall a Sean Penn, em Colors, 1988)

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31 julho 2007

Bergman, Allen

O encontro entre Bergman e Woody Allen, contado por Liv Ullman.

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30 julho 2007

Ingmar Bergman: um homem do Mal



Ingmar Bergman (1918-2007.
Bem nos dizia o coração tristonho desta tarde.
Morreu Bergman na ilha de Faro. O meu pai agradeceu-lhe pela Fonte da Virgem, pelo Sétimo Selo, por Mónica e o Desejo, por Persona. Eu agradeço-lhe isso tudo e o desamor da vida conjugal, da doença, da velhice, de um homem que caminha entre dois postes da ilha de Faro, como se caminha entre dois pontos dentro do inferno. Agradeço-lhe por Max von Sidow, por Woodie Allen, por Lars von Sidow,por Liv Ulmann e por Bibi Andersen.
Cumpriu o seu programa biológico, foi, até morrer, um homem atraente.
(frases soltas, na noite)

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22 julho 2007

No TAGV continua outros FILMES outros LUGARES



Atenção à Nova Calendarização aqui reproduzida.

Dia 23 de Julho
Still Life – Natureza Morta (China/ Hong Kong, 2006, 108`, M/12)
de Jia Zhang Ke


Dia 24 de Julho
A Maldição da Flor Dourada (China/Hong-Kong, 2006, Cores, 114`, M/16)
De Zhang Yimou


Dia 25 de Julho
A Nuvem (Alemanha, 2006, 105`, M/12)
de Gregor Schnitzler


Dia 26 de Julho
Purgatório (Portugal, 2006, M/16)
de Joaquim Leitão

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16 julho 2007

Todos os dias, às 21:30h, no TAGV de Coimbra



Hoje, 16 de Julho no TAGV de Coimbra
A vida dos outros (Alemanha, 2006, 137`)
De Florian Henckel

Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, um filme a não perder.

Nos próximos dias o TAGV permite que, nesta terra com 20 salas de exibição consagradas ao programa de extinção do gosto pelo cinema nas novas gerações, se veja alguma coisa de diferente, capaz de resgatar o prazer das salas escuras e da grande ilusão.

Dia 17 de Julho
O Caimão (França/Itália, 2006, 112`)
De Nanni Moretti


Dia 18 de Julho
Inland Empire (EUA/França/Polónia, 2006, 172`, M/16)
De David Lynch


Dia 19 de Julho
Climas (Turquia, 2006, 101`, M/12)
De Nuri Bilge Ceylan

Prémio da Crítica Internacional em Cannes em 2006


(PS: Peço desculpa ao Pedro Morais por não ter editado a Nova Calendarização dos filmes. A rectificação fica aqui e mais acima)

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19 março 2007

Das Leben der Anderen de Florian Henckel von Donnersmarck




A Vida dos Outros, um filme sobre a vigilância que um polícia da Stasi faz a um dramaturgo, nos últimos anos da RDA.

Uma história duvidosa: o polícia, um membro implacável da polícia política, um obsessivo que parece acreditar no seu papel de escudo e espada da classe operária, um verdugo do socialismo real, além do mais um misantropo quase psicótico, humaniza-se durante a escuta a um dramaturgo. O filme resiste a esta improbabilidade, e a outras debilidades do argumento, por vários motivos: a direcção de actores, o fascínio que se desprende do personagem que Ulriche Mühe interpreta, e sobretudo pela modo como recorda a sociedade leste-alemã e o regime sinistro que os russos e os comunistas alemãos aí instauraram no pós-guerra.



Uma sociedade policial e totalitária, onde uma elite cínica e medíocre utiliza uma construção ideológica, o marxismo – leninismo, como religião de Estado. Uma sociedade que em alguns aspectos lembra o Portugal de Salazar e Caetano, sempre para pior.
Em Portugal houve sempre oposição e resistência. E, depois dos anos sessenta, a oposição era maioritária nos círculos estudantis, organizada nas associações de estudantes, nas cooperativas, em alguns grupos recreativos. Um preso operário ou camponês podia desaparecer temporariamente nos cárceres da Pide, e a famigerada polícia torturava por sistema, tinha por missão a destruição sistemática dos que se opunham ao regime e, como se sabe, matou. Mas um grupo de gente corajosa levantou e manteve em funcionamento semi-clandestino, uma Comissão de Apoio aos Presos Políticos. Uma corrente de solidariedade ligava os presos às famílias, aos amigos e a sectores da população mais esclarecidos e menos dependente economicamente do regime. O isolamento político, ideológico e cultural dos oposicionistas de leste foi sempre incomparavelmente maior. Ignorados ou hostilizados pela esquerda dos países ocidentais, onde os partidos comunistas e os companheiros de estrada pontificavam, o destino de qualquer livre pensador a leste era, quando o tiro na nuca se desactualizou, a solidão, o esquecimento ou a prisão. Tudo debaixo do pesado silêncio dos que carregavam a culpa da derrota, da barbárie nazi, do holocausto. A sociedade que a classe operária construiu do lado de lá do muro era, no início dos anos 80, uma mistura de embuste ingénuo, mau-gosto, hipocrisia e brutalidade, um colosso de burocracia e obsolescência . A representação que fazemos destes tempos necessitava de um filme assim: o papel de parede atrás do qual a Stasi esconde os fios da escuta, o miúdo que pontapeia uma bola ao fim do dia, a desolação de Karl Marx Allee, a traição no interrogatório. Estranhamente, não chega conquistar um Óscar, um êxito razoável de bilheteira no Reino Unido para escapar a uma exibição discreta em salas secundárias da capital de um Império que também já foi. O fascismo nunca existiu, já se sabe. E aquele comunismo, camaradas, também não.

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O Bom Alemão, Steven Soderbergh



Um filme excelente. Na Berlim destruída da ocupação aliada, quando decorre a Conferência de Potsdam. Contado a preto e branco, com recurso a imagens de época. A sequência e os recursos da narração, o estilo de representação, a utilização da luz e do som, remetem para os filmes da época e Casablanca e A Foreign Affair, de Billy Wilder, têm sido evocados, sobretudo pela sequência final e pelas semelhanças entre Cate Blanchett e Marlene Dietrich. Durante o filme, a propósito da utilização dos esgotos como esconderijo, recordei também O Terceiro Homem, o filme de 1949 com Orson Welles. E ainda um filme lindíssimo de Axel Corti, que penso chamar-se Welcome to Wien.



Agrada-me a atmosfera de perigo iminente, onde todos mentem e todos guardam segredos, a indefinição dos poderes territoriais, o cego amor masculino, a deambulação do stalker em torno de uma mulher em fuga permanente e que nunca se chega a conhecer. As pessoas são rudes, as falas breves. São quase todos sobreviventes. O nosso herói passa o filme a levar porrada e a coleccionar cicatrizes. Mas nada o demove. Condenado à solidão, ele é o herói sem causas, compassivo, à procura da verdade da mulher amada. Um mundo de sombras, como no Terceiro Homem. Sem lugares de refúgio. Onde o lugar mais seguro para dois americanos se encontrarem pode ser o sector russo. Um mundo de escombros, onde tudo se vende e tudo pode ser comprado, tudo resulta de enganos e ardis, até o instante que reúne os amantes separados. O americano do Nespresso é o jornalista obscuro a quem a guerra deu um uniforme e volta a Berlim à procura de uma mulher. Cate Blanchett é hoje o que miss Kidman foi na última década, com a vantagem de não ter um fanático religioso a atormentá-la.
Uma palavra para os críticos de cinema: Revejam a cena em que Blanchett, de bicicleta, passa pelos soldados e comparem-na com a que Paul Verhoeven filma no Livro Negro. É por essas que na actual crítica de cinema já só nos restam as estrelas de João Lopes.

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03 março 2007

Notes on a scandal





Se o mercado reflecte os consumidores, viver aqui é um sufoco. Sessenta mil estudantes entre universidade, politécnicos e secundários. Professores, mestres, mestrandos, bolseiros, doutorados e doutorandos. Capital da saúde. Cidade do Conhecimento, na A1.
A oferta deste fim-de-semana, no que se refere aos filmes, é indicativa da forma como a Lusomundo vê a terrinha: Diário de um escândalo, As vidas dos outros, Vénus, para citar três das estreias, não estão em exibição. Vamos a Aveiro ou a Leiria?

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